terça-feira, outubro 14, 2008

Olhando para norte

Rui Moreira, no "Publico"

Esta semana, almocei com Dom Jaime Borrás Sanjurjo, presidente do Club Financiero Vigo, uma associação fundada nos anos 90 do século passado, e por isso com menos história, mas que tem uma missão muito semelhante à da Associação Comercial do Porto.

Apesar da inquietação pelo adensar da crise internacional, que dominou o ambiente, tivemos oportunidade de falar das nossas cidades e regiões e da colaboração estratégica que precisa de ser aprofundada também ao nível das instituições associativas.

A questão do modelo de gestão do Aeroporto Francisco Sá Carneiro e do TGV entre o Porto e a Corunha são temas em que partilhamos muitas preocupações. No caso do nosso aeroporto - e há que reconhecer e enaltecer a sua promoção por parte da ANA junto dos galegos - percebe-se que ele é hoje de grande utilidade para quem mora do outro lado da fronteira. Porque, apesar de a Galiza dispor de três aeroportos, ou talvez por isso mesmo e pela dispersão de recursos e de tráfego que isso implica, o nosso tem uma maior dimensão e uma oferta inigualável em termos de destinos directos, o que é hoje um factor de competitividade para qualquer região.

Por isso, os galegos partilham hoje da nossa ansiedade, face à ameaça de um modelo de privatização que poderá vir a secundarizar o aeroporto do Porto. No caso da ligação ferroviária, percebe-se que do outro lado da fronteira há ainda dúvidas por esclarecer, o que não admira, na medida em que nós próprios temos grande dificuldade em compreender em que fase de desenvolvimento está o projecto.

É verdade que se sente, em toda a Galiza, uma proximidade com Portugal, que vai muito para além da questão da língua. Os autonomistas galegos sempre procuraram a sua inspiração na proximidade a Portugal e acentuaram as suas parecenças culturais connosco para evidenciar as suas diferenças relativamente a Castela.

Aliás, a mais recente querela sobre a política linguística e a sua influência na questão educativa tem sido muito acesa na Galiza e, ainda há pouco tempo, os autonomistas viram recusada a sua pretensão de mudarem a sua hora para a portuguesa.

Mas, ainda que a influência da proximidade portuguesa se sinta por toda a Galiza, ela é mais evidente em Vigo do que na capital política, Santiago de Compostela, ou na Corunha, que é a mais castelhana das cidades galegas. Aliás, não é por acaso que os corunheses dizem, com humorado despeito, que o primeiro viguês era filho de uma meretriz e de um português...

Pena é que nessa cidade, que tanto tem prosperado e que tantas relações mantém com Portugal, a nossa presença seja ainda ténue, apesar do encurtamento das distâncias e do muito elevado número de portugueses que aí trabalham. Nesse aspecto, a notícia da despromoção do consulado geral de Portugal em Vigo e o consequente regresso da esforçada e competente cônsul, Maria Regina Almeida, não augura nada de bom. Bem sei que o presidente da CCDR e os nossos autarcas se têm empenhado em fortalecer os laços neste diálogo transfronteiriço, mas há ainda muito por fazer e enormes oportunidades a não perder.

A promoção turística do Norte de Portugal junto dos públicos galegos, por exemplo, tem de ser incrementada e agilizada. O turismo de proximidade é o mais estruturante e estável e precisamos de o garantir para que o crescimento que se nota na nossa região tenha a desejável sustentação. Há uma grande esperança por parte dos investidores e têm surgido inúmeros novos projectos de hotelaria na região e, em particular, no vale do Douro, que está na moda. Expectativas que não podem ser defraudadas.

A esse respeito, há também notícias que nos entusiasmam e fazem sonhar, como a reabertura do Hotel Infante de Sagres, o mais emblemático hotel da cidade, por Miguel Júdice, que também acaba de anunciar o seu projecto Douro 41, um hotel que ficará a essa distância quilométrica do Porto. Um bom sintoma de esperança, nestes tempos tão conturbados.
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1 Opiniões

At terça out 14, 02:07:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Por mais esforço que aplique não consigo concentrar-me na problemática da regionalização, "olhando só para o Norte".
O mapa deste "post" é riquíssimo de oportunidades a aproveitar no quadro da regionalização, dado que tais oportunidades se identificam com um sem número de afinidades antropológicas e linguísticas não verificáveis noutras regiões do nosso País. Se existe região (ou regiões) onde a identidade antropológica é mais densamente histórica é precisamente a área geográfica formada pela Região Autónoma da Galiza e pela futuras Regiões Autónomas de Entre Douro e Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro.
É incompreensível que exista disparidade no estatuto político entre as futuras regiões autónomas portuguesas e aquela região autónoma galega, a qual constitui um verdadeiro impecilho na adopção de políticas comuns de base e finalidades regionais rumo ao desenvolvimento, que se quer autosustentado, equilibrado e coordenado.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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