quinta-feira, novembro 20, 2008

O Algarve 2000-2006

Sérgio Martins, Técnico Superior de Turismo, in revista Algarve Mais de Outubro/2008

No período 2000-2006, a estratégia de desenvolvimento do Algarve e para os fundos europeus que recebemos, tinha como primeiro objectivo a afirmação da capacidade competitiva do Algarve através da especialização económica centrada no complexo do turismo e lazer, mas incluindo igualmente uma visão integradora dos diversos elos da cadeia produtiva regional. O segundo objectivo era a construção das condições de competitividade regional, com especial enfoque na valorização dos recursos humanos, competências regionais e coesão social, e no território e ambiente.

A avaliação que desses objectivos não é muitas vezes fácil, mas os dados públicos são alarmantes.

O Algarve está claramente centrado no turismo mas a especialização quantitativa e qualitativa deixa a desejar. Por cá, a taxa de ocupação caiu, o crescimento da capacidade de alojamento apenas seguiu a média nacional, os apartamentos turísticos tiveram mais crescimento que outras unidades com mais qualidade, os proveitos de alojamento cresceram muito menos que o todo nacional e os proveitos totais estagnaram enquanto no todo nacional cresceram.

Já sobre os diversos elos da cadeia produtiva regional, os dados públicos são poucos mas não é difícil constatar que Industria, Comércio e Agricultura, Silvicultura e Pescas não deram nenhum grande salto em frente (à excepção da proliferação de centros comerciais).

Já sobre a valorização dos recursos humanos, competências regionais e coesão social, pode-se constatar que, no Algarve, o aproveitamento escolar caiu, aumentou a formação profissional mas caiu a formação contínua (só 1%, contra os 10% da média europeia), aumentou a população empregada qualificada mas a não qualificada não diminui por aí além e as ofertas de emprego do IEFP são muitos mais para trabalho não qualificado do que para qualificado.

No que diz respeito à coesão social regista-se a duplicação da taxa de desemprego e uma elevada taxa de desemprego entre os jovens, a continuidade do emprego/desemprego sazonal e uma taxa de precariedade bem acima dos 30%

Ao nível do PIB per capita, da riqueza por pessoa, o Algarve ultrapassou os 75% da média da União Europeia, em Maio de 2004, por via do alargamento da União Europeia de 15 para 25 países e da entrada de países e de regiões ainda mais pobres que o Algarve. Mas, trata-se de uma mera operação aritmética e estatística, sem fundamento na realidade algarvia e o Algarve continuou a ser a mesma região, com o mesmo nível de riqueza e de pobreza, nada mais rica e com os mesmos problemas.

Na realidade, a riqueza do Algarve é efectivamente inferior a 75% da média UE (a 15 ou mesmo a 25) porque a nossa riqueza não pode ser aferido na mesma óptica de outras regiões, face às características próprias da principal actividade económica da região - o turismo e as suas muitas receitas que não ficam na região.

Sobre a riqueza do Algarve, basta ver que nas actividades mais relevantes no emprego algarvio, Hotelaria e Restauração, e Comércio por Grosso e a Retalho, os salários médios na Hotelaria e Restauração são 34% inferiores ao salário médio nacional e os salários médios Comércio por Grosso e a Retalho são 5% inferiores ao salário médio nacional.

A avaliação global do período 2000-2006 não é boa. Agora, já em pleno período 2007-2013 dos fundos europeus (os últimos dignos de nota), é desejar que os anos vindouros sejam realmente de mudança para melhor.

Numa próxima oportunidade, abordarei o período 2007-2013, mas tenho à partida algum receio sobre os resultados finais. É que falta uma coisa essencial: a regionalização. A existência da Região Administrativa do Algarve é o único garante da existência de debate regional, planificação participada, politicas regionais dinâmicas e líderes eleitos.

Mesmo apesar do esforço de alguns líderes regionais nomeados por Lisboa ou sob a sua influência, continuará a faltar uma coisa essencial à administração regional: terem passado pelo processo construtivo do debate de projectos e ideias regionais, pela aprovação das suas políticas pelos algarvios e pelo estimulo ao trabalho proporcionado pela prestação de contas ou candidatura perante os eleitores.

4 Opiniões

At quinta nov 20, 02:25:00 da tarde, Blogger vitorsilva said...

gostei bastante da sua análise.
gostava de lhe perguntar se me poderia enviar os dados base que usei para ela de forma a eu poder criar uma visualização parecida com a que disponibilizei em http://blog.osmeusapontamentos.com/?p=902 para a evolução da população em portugal

 
At quinta nov 20, 02:41:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Exmo. Vitor,

São dados do INE, dos mas não tenho-os sistematizados em base de dados.

 
At quinta nov 20, 09:33:00 da tarde, Blogger vitorsilva said...

não é preciso base de dados.
se me quiser enviar um mail para vitorsilva.com at gmail.com com a informação que tem eu vejo o que se consegue fazer.
é só para me poupar o trabalho de recolha de informação onde se gasta bastante tempo.

 
At quinta nov 20, 10:28:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Estamos perante um excelente exemplo para enquadrar toda a problemática da regionalização como instrumento político de desenvolvimento, ao colocar a ênfase na valorização dos recursos próprios de cada Região, nomeadamente na valorização (que não chega) e na mobilização dos respectivos recursos humanos.
Os índices médios "per capita" apresentados correspondem mais ao reposicionamento estatístico do nosso País, decorrente da entrada de novos Países com pior desempenho do que a uma efectiva melhoria da nossa posição face aos índices médios da UE (mesmo ao nível dos salários praticados nos sectores em que o Alagarve tem demonstrado alguma competitividade: hotelaria e restauração).
Por outro lado, com a estrututa orgânica e política sem alterações, no período 2007/2013, os resultados estatísticos relacionados com o desenvolvimento não serão muito diferentes (como iremos verificar mais tarde) dos encontrados no período anterior de colecção dos fundos estruturais da UE.
Por isso, é relevante que se compreenda que é necessário diversificar a produção de todas as futuras Regiões Autónomas, de acordo com as características dos seus recursos próprios, sem esperar desistência de investimentos e produções em sectores como a indústria, o comércio, a agricultura, a silvicultura e o turismo, em que neste último sector será validado pelo mercado apenas investimento de qualidade média-alta e alta (teremos de perceber de vez que quantidade nunca é sinónimo de qualidade) e tudo enquadrado na coerência de diversas políticas de natureza e finalidade regionais, em direcção ao desenvolvimento regional e nacional.
Face a este enquadramento, não se (pode) resistir a propor uma nova organização regional e política que permita uma governação muito diferente da actual (vai ser uma luta política gigantesca), especialmente nos seus aspectos QUALITATIVOS, assente na criação e implementação da regionalização autonómica (7 Regiões Autónomas) e no abandono definitivo (custe o que custar e a quem custar) das regiões administrativas que nunca permitirão uma verdadeira eleição de políticos regionais nem permitirão o rejuvenescimento dos dirigentes políticos, sempre submetidos a direcções nacionais insensíveis a problemas de desenvolvimento regional, nem a reestruturação eliminatória dos vícios funcionais históricos dos partidos de dimensão nacional.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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