domingo, agosto 30, 2009

José Sócrates e o conceito de «província»

A 14 de Agosto de 2001, saía no "Urbi et Orbi", jornal on-line da Universidade da Beira Interior, uma entrevista ao então ministro do Ambiente, José Sócrates, um político oriundo da Covilhã. Oito anos depois, é interessante redescobrir esta entrevista, que nos revela muito sobre a postura de José Sócrates em relação a Lisboa, à política, e às outras regiões do país (às quais ele próprio chama "província"). Na análise desta entrevista, fica-se a pensar na utilização deste conceito de "província", que ele próprio utiliza quando se refere à sua região, embora o faça num contexto de leve crítica a Lisboa. Sabendo que este é um conceito muito utilizado em Lisboa quando alguém se refere às pessoas e às zonas fora da capital (tanto é da província o portuense, o albicastrense, o conimbricense ou o farense), muitas vezes com carácter depreciativo, ficamos a pensar se o entrevistado será regionalista, ou se se tratará de mais um caso da aculturação lisboeta.

Para tal análise, vale a pena dar uma vista de olhos à entrevista. Destaco, entre outras, as seguintes passagens:

«Urbi et Orbi (U@O)- Encontrou grandes dificuldades para se afirmar no litoral, já que é um "produto" do interior?
J.Sócrates (J.S.) - Olhe, há ainda uma grande segregação que tem a ver com a origem e com a província. Não há mesma igualdade de oportunidades. Isto quer dizer que as pessoas do interior, para se afirmarem na corte lisboeta têm de ser muito mais talentosas que as pessoas de Lisboa. Muito mais mesmo. Sei que isto pode parecer imodéstia, mas é verdade.
Toda a gente que ocupa lugares de destaque sabe o que se passa até se chegar à afirmação política numa corte muito invejosa, muito ciumenta, muito pequena, também ela própria provinciana. Olha sempre para quem vem, perguntando se ele saberá pisar, se tem modos, se será inteligente e se estará à altura para participar.
Para quem vem do interior a afirmação política é sempre muito difícil, mas isso não acontece apenas na política. Isso vê-se também noutras profissões.

U@O - Apesar de viver em Lisboa, sente ainda uma grande ligação com a Covilhã?
J.S. - Muita ligação. Eu sou um político da Covilhã, um político da província.
Aqui nasci para a política, ou melhor, aqui fiz os meus estudos. Aqui formei o meu carácter e a minha identidade.
Estou indissoluvelmente, para o bem e para o mal, ligado à Covilhã. Às vezes para o mal, mas a maior parte das vezes para o bem.

(...)

U@O - A Covilhã não é um grande centro urbano. Aconselhava a UBI a algum dos seus filhos?
J.S. - Sim, porque não? Isto aqui já é um grande centro urbano. No entanto, temos que criar aquilo que faz hoje fundamentalmente a atracção dos centros do saber.
Fixar aqui livros, acho que é a grande aposta que a UBI deve ter. Não deve apostar apenas nos espaços, embora estes também sejam importantes. No meu ponto de vista deve apostar ainda em professores de renome. Muitas vezes a solução é pagar melhor para fixar aqui boas cabeças.»

(a entrevista na íntegra pode ser lida aqui)

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3 Opiniões

At domingo ago 30, 07:32:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Mais importante que a opinião é a prática política direccionada para o desenvolvimento da sociedade, bem como a quantidade e os tipos de meios utilizados.
Os objectivos associados ao desenvolvimento e à proposta de utilização de meios são de natureza estrutural, a opinião pode mudar de acordo até com o posicionamento ou interesse de cada um, situando-se num patamat de comportamento muito mais volúvel.
De certeza absoluta que desde aquela entrevista, a opinião do Senhor Engenheiro José Sócrates terá já mudado e muito. Os objectivos serão sempre de desenvolvimento da sociedade, mantendo-se como tal por não ter havido ainda ninguém capaz de os atingir, infelizmente.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 
At terça set 01, 09:54:00 da tarde, Anonymous zangado said...

Pois é, mais um que se deixou integrar na capital e suas "desvairadas" gentes, esquecendo-se, no essencial, de onde é e como se vive no resto do País. Mais um convertido ao centralismo e colonialismo lisboetas. O pior é que muitos destes cristãos-novos são ainda piores que muitos dos lisboetas. Esses, pelo menos, ainda têm a desculpa de não conhecerem a verdadeira situação do país real, como Manuela Ferreira Leite, agora este, que veio da Beira Interior onde cresceu e viveu até ir para Lisboa, não tem desculpa, tal como os outros como ele.
Cumprimentos

 
At quarta abr 13, 01:32:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

poxa q podre

 

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