
O paradigma Beira Interior vs "região Centro": o caso de Fornos de Algodres
Fornos de Algodres só tem a ganhar com a inclusão na Beira Interior. Fornos de Algodres, tal como os restantes concelhos da Beira Interior, a ser incluído numa região "Centro", seriam sempre os parentes pobres. Os empecilhos que estariam lá a ocupar espaço sem fazer nada. Uma zona que dá muito trabalho a desenvolver e que representa muitos poucos votos e muito poucos impostos. É assim que queremos ver Fornos de Algodres e todo o distrito da Guarda? Para quem quiser ver Fornos de Algodres esquecido, então as 5 regiões são o melhor. Quem quer ver Fornos de Algodores ganhar notoriedade, desenvolver-se, e voltar a ter esperança num futuro de desenvolvimento, só pode defender as 7 regiões, entre as quais a Beira Interior, em que o concelho de Fornos está incluído.
Senão veja, nem é preciso muito: vá a Mangualde, e descubra as diferenças entre o concelho de Mangualde e o de Fornos. Veja: o concelho de Mangualde está industrializado e desenvolvido; Fornos está rural e atrasado; Mangualde tem crescido enquanto cidade e concelho, Fornos está a regredir, a ver toda a gente partir, e a perder população a olhos vistos; em Mangualde tem-se investido, Fornos continua à espera do investimento público e privado; em Mangualde têm-se aplicado todos os dinheiros dos fundos nacionais e europeus de coesão, em Fornos, esse dinheiro ninguém o vê, tem sido desviado para o Litoral. É assim que queremos que as coisas continuem? Então associe-se a uma região com uma realidade completamente diferente da sua, uma região "rica em desenvolvimento", onde Fornos seria o parente pobre e ficaria irremediavelmente para trás, completamente esquecido pelos governantes regionais. Imaginemos que chegavam à região "Centro" os fundos de coesão nacionais e europeus, com 3/4 do dinheiro destinado a ser aplicado nas regiões do Interior e o restante 1/4 correspondente às regiões do Litoral. Será que a aplicação seria assim? Claro que não! Sabe onde é que o governo regional aplicaria o dinheiro? Então eu vou-lhe dizer:
1º (a maioria) em Coimbra, mais que provável capital regional, onde se formaria o clientelismo e a sociedade de tachismo do género da que existe hoje em Lisboa; porém Coimbra é hoje a 3ª cidade do país e está mais que desenvolvida;
2º nos arredores de Coimbra e na Figueira da Foz, estância de férias dos conimbricences, também mais que desenvolvida;
3º em Aveiro, Viseu, Leiria (e redondezas) que, como cidades grandes, com 50 a 70 mil habitantes, e com uma economia forte, uma população em crescimento, e uma forte massa crítica, contestariam Coimbra;
4º As migalhitas que sobravam ficavam para as zonas que mais precisam, da Beira Interior, que, como as maiores cidades que têm mal chegam aos 30 mil habitantes, e os restantes concelhos pouco passam, no máximo dos 10 mil, e como estão longe, e têm um tecido económico com forte potencial mas em decadência, não têm portanto massa crítica para reclamar por mais. Vai ser, para estes 25 municípios, e cerca de 370 mil habitantes, o que já tem acontecido com a relação com Lisboa: vão ser esquecidos e relegados para último plano.
Fornos de Algodres, tal como toda a Beira Interior precisa de medidas concretas, específicas, muito diferentes das necessárias na Beira Litoral. Precisa de políticas natalistas, políticas de incentivo à fixação da população e das empresas, de melhorias nas estradas e na rede ferroviária, da potencialização de recursos humanos e naturais, de promoção do turismo e da posição estratégica que a região ocupa em termos ibéricos (ideal para empresas à procura de conquistar os mercados de Portugal e Espanha), etc.Políticas que só serão implementadas se a Beira Interior for uma região própria, independente da Beira Litoral. Ou acha que, para os políticos de Coimbra, Aveiro, Leiria ou Viseu, faz alguma diferença que Fornos de Algodres, Celorico, Guarda, Castelo Branco, Trancoso, Oleiros ou Vilar Formoso morram, como todo o Interior? Até é melhor para eles!! Por isso é que eles querem a Região "Centro": as regiões interiores recebem fundos de coesão elevadíssimos, que eles podem gerir à vontade e aplicá-los a construir Metro em Coimbra, a modernizar o Porto da Figueira, a construir frentes ribeirinhas em Aveiro ou em Coimbra... APLICAM EM TUDO, MENOS NO INTERIOR, que é onde o investimento é mais necessário!
Com a Beira Interior, tudo seria diferente. Com uma região homogénea, com cerca de 2/3 de população rural e apenas 1/3 de população urbana, as zonas menos desenvolvidas ganhariam grande peso na vida da região, o que obrigaria os governantes a aplicar os fundos onde eles realmente são necessários. Com uma região em não há uma cidade claramente centralizadora, com vocação de capital, e as maiores cidades andam entre os 25 e os 30 mil habitantes, teríamos uma região polinucleada, com serviços regionais a serem distribuídos por vários municípios, e não haveria a formação de novos centralismos. O investimento seria atraído para onde realmente é necessário, e haveria uma equidade entre todos os cidadãos. As políticas seriam adequadas à região, por esta ser homogénea, e nenhum local, desde as cidades às anexas das freguesias, seria esquecido. Os fundos de coesão nacionais e europeus seriam aplicados onde realmente é preciso: na modernização da agricultura, na reconversão da indústria, na fixação de população, na recuperação do património turístico e das vias de comunicação, e na construção de infra-estruturas.
Mas se querem o "Centro", avancem. Tenho é 99,9% de certezas que se vão arrepender, e daqui a uns anos já estão a pedir a divisão da região em Beira Litoral e Beira Interior. Mas na altura já vai ser tarde demais, e o Interior já vai estar "com os pés para a cova".
O mito da insustentabilidade da Beira Interior
Sejamos práticos: juntando ricos e pobres na mesma região, os ricos vão ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres.
Ou está-se à espera que os pobres vão fazer de mendigos para a porta dos ricos (que é como quem diz, os beirões-interiores vão para Coimbra manifestar-se em vão para lutar pelos seus direitos), e os ricos façam caridade para com os pobres? Infelizmente, as coisas não são assim.
Mendicidade é o que vai acontecer à Beira Interior se integrada numa região "Centro". Vai andar atrás dos ricos a pedir esmola. E, pior: os ricos (Coimbra, Aveiro, Viseu, Leiria e Figueira da Foz) vão andar a receber dinheiro que pertencia aos pobres e vão gastá-lo consigo mesmos, para se tornarem ainda mais ricos, e competirem com os outros (Lisboa, Porto, Braga e Setúbal) que ainda são mais ricos. É isto que queremos para o nosso país?
A Beira Interior tem 370 mil habitantes. Tem quase tantos habitantes como o Algarve. Nesta lógica de juntar os ricos e os pobres, porque não propõe também anexar o Algarve ao Alentejo? Porque é que o Algarve teria um estatuto especial? Porque é propriedade inglesa? Ou porque tem um lobby muito forte em Lisboa? Eu voto pela segunda.
Por esse mesmo prisma, chegar-se-ia ao ponto de se concluirem disparates como o de a Espanha estar mal regionalizada. É que regiões como La Rioja, com 300 mil habitantes, segundo esse prisma não teriam viabilidade. E o que é certo é que têm. E o que é certo é que inverteram a tendência de desertificação e encetaram uma era de desenvolvimento. E o que é fizeram isto tudo apenas com parte do dinheiro dos impostos nacionais que lhes foram destinados, mais o dinheiro que o Plano de Convergência dos sucessivos Orçamentos de Estado de Espanha têm destinado às regiões mais pobres, mais o dinheiro dos fundos e programas da União Europeia. Uma região da dimensão da Beira Interior, vejam lá. Se tivesse sido integrada, como os centralistas espanhóis queriam, em Castilla y León, hoje La Rioja estaria ao abandono.
A Beira Interior é concretizável, sustentável, e é a melhor solução para a Regionalização em Portugal. A Beira Interior viverá, como região interior, da parte dos impostos nacionais já existentes, cobrados na região, que lhe será destinada, mais os fundos nacionais e europeus de coesão. E chega perfeitamente para uma região da dimensão da Beira Interior, cujo único objectivo deve ser equiparar-se ao nível de desenvolvimento das restantes regiões (litorais) de Portugal, e só depois começar a pensar em competitividade nacional e internacional. Isto sim, é ser prático.
Nota: para confirmar a sustentabilidade das regiões pequenas e interiores, sugiro a leitura do Estatuto de Autonomia de La Rioja, disponível
neste link, principalmente no título IV (a partir da página 35): "De la financiación de la Comunidad" ("O Financiamento da Região").
Afonso Miguel