ESPANHA - Nacionalismos presos pelo fio da regionalização

|PATRÍCIA VIEGAS|

A Espanha vive em crispação política constante e tem grande diversidade cultural

Espanha é um país em que os nacionalismos fervilham, em que a diversidade está presa pelo fio que é a regionalização: 17 comunidades e duas cidades autónomas fazem parte dele.

Todas têm governos regionais. Galiza, País Basco e Catalunha são as chamadas autonomias históricas e têm línguas próprias. Geral, em português, por exemplo, é general em castelhano e catalão, xeral em galego e osorok em basco.

Bascos e catalães têm polícias autonómicas próprias, a ertzaintza e os mossos d'esquadra. No País Basco ainda está activa a ETA, organização terrorista criada há meio século durante a repressão da ditadura do general Franco.

Na Catalunha a busca de mais independência faz-se de forma pacífica mas com recurso a uma dura retórica política. O novo estatuto de autonomia catalão, que no preâmbulo define essa comunidade como uma nação, tem gerado polémica e várias manifestações foram organizadas em defesa da unidade espanhola.

O Tribunal Constitucional deu ontem o aval à maior parte do estatuto e admitiu que a designação nação não tem validade jurídica- quatro anos após o recurso apresentado contra o documento pelo Partido Popular.

A crispação política tem sido uma constante desde que o PP passou para a oposição e o poder foi parar às mãos dos socialistas de José Luis Rodríguez Zapatero.

A investigação ao 11 de Março, a remoção das estátuas de Franco, os casamentos homossexuais, a recuperação da memória histórica e reparação das vítimas do regime fascista ou até mesmo a crise. Tudo tem servido para uma troca de acusações constante entre os dois maiores partidos espanhóis.

Mas tal crispação é apenas política e não está presente ao nível do dia-a-dia da população, dizem alguns historiadores espanhóis. Quem viaja pelo país vizinho não percebe logo que ela existe. Antes presta mais atenção à riqueza que a sua diversidade encerra. Na comunidade da Andaluzia encontramos as raízes do flamenco, detectamos a presença árabe em cidades como Granada, tomamos consciência de quão próximos estamos de África.

Na Galiza tudo é verde, parecendo uma continuação da zona Norte de Portugal. Muitos conhecem-na por causa das peregrinações a Santiago de Compostela. O País Basco também tem paisagens montanhosas impressionantes.

A proximidade com os vizinhos lusos é muito visível na comunidade da Extremadura, onde foi introduzido o ensino da língua portuguesa no ensino primário. Na Catalunha, Barcelona, sua capital, tornou-se um caldo de culturas. Muitos alunos de Erasmus escolhem ir para aí estudar. Muitos muçulmanos fixam-se também aí.

Apesar de tanta diversidade, os espanhóis têm um falar alto e parecer sempre alegre que os distingue dos portugueses, sejam eles da Galiza, País Basco, Catalunha ou qualquer outra comunidade.
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Comentários

templario disse…
Caro António Felizes,

Hoje é feriado em Sintra, dia de S.Pedro, e andava a imaginar jogadas "mortíferas" para humilhar, logo à noite, os castelhanos, na África do Sul. Numa dessas jogadas (as outras são muito elaboradas, precisam de muito treinamento), o Coentrão flete da lateral junto à linha de meio campo em direção à zona central da área, simula desmarcar Ronaldo, fica com o corredor aberto, entra na área, onde 4 portugueses estão dispostos em quadrado, atraindo a si os defesas, e o génio benfiquista faz a bola beijar as redes. É o delírio em Portugal, de norte a sul, a alma imensa... lusa dará expressão a este patriotismo singular, de amor, unidade e paixão. É gostoso vencer os castelhanos, e nós vamos vencê-los mais uma vez, à maneira de Aljubarrota.

E eis que o senhor A.Felizes me surpreende com um post a explicar o que é, na realidade, a Espanha das nações, assim como quem avisa: qual regionalização, qual carapuça!

Eu bem percebi o título, "Nacionalismos presos pelo fio da regionalização"... Mas por aqui não há nações, há só uma, e mais nenhuma aqui terá cabimento... A nossa unidade não depende de nenhuma regionalização, de nenhuma divisão do poder. Talvez precisássemos de um couto para homiziados, para lá plantar certa gente, por exemplo, nas Berlengas, com crocodilos à volta, onde puderiam expiar as suas "safardanices".

VAMOS A ELES! ATÉ OS COMEMOS!
FORÇA PORTUGAL!

Já agora..., deixo aqui, com a devida vénia, um texto que José Pacheco Pereira escreveu ontém no seu blogue Abrupto, atendendo ao seu interesse pedagógico:

Partidos regionais? Porque não? Pode ser que surjam uns muito provincianos, muito grunhos, muito espevitados pelo futebol ou pela construção civil, ou pelas listas B que perderam nos partidos contra as listas A. Mas, mesmo assim, prefiro. Sempre são melhores do que a regionalização, que essa trará ainda mais perversões para os partidos, com a sua cada vez maior dependência das autarquias e com a ideia de que a proximidade local serve para resolver os problemas nacionais. E limpará os partidos de muita gente cuja vocação, sem sentido pejorativo, é a política local e regional.

Não vou muito à bola com ele, especialmente pela sua doentia perseguição a Sócrates, para mim o melhor Primeiro Ministro de Portugal desde a Rev. Liberal, 1820 (tirando aquele desiquilíbrio de ser regionalista, mas, a bem dizer, parece que está de abalada...).

Mas o JPPereira, em meia dúzia de linhas, carateriza bem o desconcerto racional que impera na "classe" política portuguesa.

Vamos lá ganhar a Castela (e Leão)!
Caro Templario,

Não estou no grupo daqueles que defendem ou pensam que o modelo de regionalização espanhola (Autonomias) seria o aconselhável para o território de Portugal continental.

Pessoalmente, sou defensor do modelo de regionalização que está consagrado na nossa Constituição desde 1976, ou seja, o modelo das Regiões Administrativas. As regiões como grandes autarquias locais por forma a aproximar as populações do centros de decisão e desta forma reforçarmos a nossa democracia.

Não quero mais administração. Este novo patamar administrativo terá que ser construído em detrimento de muita da actual administração central - Institutos Públicos, Direcções Regionais, CCDRs, Governos Civis etc.

Como vê, nada de mais!

Cumprimentos,
Afonso Miguel disse…
Caro templario:

Para um arraiano como eu, constatar a maneira como o templario encara a Espanha é profundamente chocante.
Mais ainda: essa diferença enorme na maneira como se olha para Espanha nas diferentes regiões de Portugal é apenas mais um aspecto no qual se constata a enorme diversidade entre as regiões Portuguesas.
Vá a uma qualquer aldeia ou vila da Raia, da Galiza/Entre-Douro e Minho até à Andaluzia/Algarve, e constate como os Povos de Portugal e Espanha se tratam como irmãos. E não se esqueça que esses povos arraianos sentiram na pele, e pagaram com sangue, suor e lágrimas as guerras entre as nações ibéricas.

Semelhante tratamento face a Espanha, nem na Idade Média fazia sentido, pelo menos na Raia. Muito menos hoje, em pleno século XXI, quando ambos os Povos estão integrados na UE e a barreira física mas imaginária que separava Povos irmãos se desmoronou há quase duas décadas.


Já agora, estranho a falta de comentários da sua parte a uma medida que, ao contrário da Regionalização, dá mais uma machadada na unidade nacional.
Falo dessa medida completamente estapafúrdia que consiste em colocar portagens nas auto-estradas do Interior de Portugal, que fazem com que, se tal for para a frente, um cidadão da Beira Interior pague mais para ir a Lisboa do que a Madrid, ou fique mais caro a alguém de Vilar Formoso ir à Covilhã do que a Salamanca...
Por muito patriotas que sejam, as pessoas vão inevitavelmente virar-se para Espanha...

Isto sim dá cabo da unidade nacional!



Cumprimentos,

PS: Já agora, boa sorte à nossa selecção de PORTUGAL.
Anónimo disse…
Caro Afonso Miguel, não foi bem isso que vi em Barrancos numa reportagem no dia do jogo. Vi um portuguesismo acérrimo e á outrance(muito mais nacionalista do que no litoral), sobretudo contra Espanha - mas pacífico claro no plano humano e do desporto.

Pedro