domingo, agosto 29, 2010

Face ao centralismo, a Beira Interior aposta na cooperação transfronteiriça

Autarcas raianos assinaram Acta do Tratado de Fronteira nos Fóios
«De “espaldas” nunca mais»


No âmbito da iniciativa “Raia de Oportunidades”, organizada pelo Governo Civil da Guarda, em parceria com a Câmara do Sabugal e a Junta de Freguesia dos Fóios, vários autarcas da zona de fronteira, do lado português e espanhol, assinaram na passada quinta-feira a Acta do Tratado de Fronteira. Tratou-se de uma iniciativa que pretende confirmar a delimitação de fronteiras dos dois lados que, ao mesmo tempo, tendem a aproximar-se cada vez mais para benefício dos dois países.

O Governador Civil da Guarda sublinhou que a assinatura do documento é «um acto simbólico» que «numa Europa com cada vez menos fronteiras marca a ideia de uma identidade cultural que está consubstanciada num território». Santinho Pacheco frisou a importância de «à medida que nos aproximamos cada vez mais com as comunidades espanholas do lado de lá da fronteira digamos uns aos outros que há aqui uma linha que nos separa e que diga vocês são espanhóis e nós portugueses». Do mesmo modo, «é muito importante que independentemente de todas as razões jurídicas do ponto de vista internacional e comunitário que nós continuemos a manter esta linha divisória entre Portugal e Espanha». No entanto, reconheceu que «o que existe hoje cada vez mais são dois países unidos», mas salientou que a «fronteira existe». «Este é um tratado datado de 1868 e desde então todos os anos dizemos uns aos outros que os marcos estão no seu sítio, nem os portugueses foram roubar terra a Espanha, nem a Espanha roubou terra a Portugal. É um acto de um simbolismo muito grande. A fronteira não separa nada. Os problemas de lá são os mesmos de cá, mas as oportunidades de lá também são as mesmas de cá. Vamos trabalhar em conjunto para as aproveitar», garantiu.

Também o presidente da Câmara do Sabugal, que assinou o documento em nome dos autarcas do seu concelho, enalteceu o simbolismo da assinatura do Tratado de Fronteira. António Robalo considerou que, «embora estejamos numa Europa sem fronteiras», «estas tradições se devem manter. Devemos pugnar para que as nossas diferenças se mantenham e seja possível construir um território moderno, mas também amarrado à sua história e às suas origens».

De igual modo, o anfitrião da iniciativa, presidente da Junta de Freguesia dos Fóios, garante que os dois lados só têm a ganhar com o intercâmbio, salientando que a assinatura do Tratado de Fronteira «tem um significado muito especial, acima de tudo, porque nos juntamos e debatemos sempre alguns aspectos que são comuns». José Manuel Campos recorreu a uma expressão espanhola para dar conta do seu optimismo: «De “espaldas”, como os espanhóis dizem, nunca mais. De caras, abraçados e a caminhar no sentido do progresso e do desenvolvimento». Entre as várias individualidades presentes na cerimónia esteve Vasco Franco, secretário de Estado da Protecção Civil, que salientou estar a assistir a um «acto contraditório». É que «estamos a verificar se a fronteira está toda no sítio e ao mesmo tempo a estreitarmos a nossa relação». Já Correia de Campos, actual deputado no Parlamento Europeu e antigo ministro da Saúde, defendeu que «é necessário explorar vantagens e não criar barreiras entre os dois lados». A iniciativa “Raia de Oportunidades”, que decorreu durante dois dias, pretendeu chamar a atenção para as potencialidades da zona raiana do distrito da Guarda, intensificar o intercâmbio com as comunidades da Raia Espanhola e potenciar a confiança no futuro da região.

O Interior (Guarda, Beira Interior), 26/08/2010


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1 Opiniões

At segunda ago 30, 10:24:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Este tipo de iniciativas é excelente, mas só terá resultados duradouros para o desenvolvimento se forem negociadas e acordadas em posição de paridade autonómica regional pelas entidades políticas regionais das nações envolvidas.
De outro modo serão remendos ou condicionamentos introduzidos nos mecanismos de desenvolvimento pelos governos centrais incapazes de descentralizar politicamente seja o que for, por desconhecimento, incapacidade, incompetência e, até, despeita.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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