quarta-feira, setembro 15, 2010

Razões para o condomínio lisboeta



|João Boavida|



Ainda a propósito de Lisboa como um condomínio fechado, temos que reconhecer que tem, hoje, excelentes condições para isso. Sobretudo económicas. É, de longe, a primeira cidade do país em poder de compra. Depois, é a única zona do País com um PIB acima da média europeia (104%), enquanto o resto de Portugal se fica pelos 72% (este desequilíbrio devia obrigar a políticas fortes, se, claro, a mentalidade do condomínio fechado não dominasse).

É ainda o lugar onde reside toda a classe política significativa, quer a competente quer a incompetente. É certo que há na Província muitos putativos políticos, mas, enquanto por aqui andam, pouco contam, e quando lá chegam dão força a Lisboa na proporção em que a retiram daqui.

Acresce que não querendo parecer políticos de Província procuram apagar a sua origem esquecendo os seus eleitores. Uma coisa é certa: Lisboa (ou o melhor dela) vive na abastança em relação ao País, o que aumenta a gula de uns e o espírito superior e suspeitoso dos outros – ingredientes indispensáveis para um condomínio fechado.

Que não é de agora, já vem detrás, que se pensou até que a democracia podia inverter, mas que não conseguiu, ou não quis. Com efeito, para o actual condomínio lisboeta todo o País tem dado o seu contributo, esvaziando os bolsos. Lembram-se do J. Pimenta e da Torralta dos anos 60/70 e o que significou em capital não investido nas próprias terras?

E quanto a Serviços, para a Província, descentralização, nada, Lisboa não deixa. Já repararam na cintura de protecção que Lisboa fez em relação às suas universidades, não tendo deixado criar universidades públicas nas cidades mais próximas? Não houve esse cuidado para com o Porto ou Coimbra.

Daqui deriva, como não pode deixar de ser, uma problemática sociológica. E uma psicológica, que resulta daquela. E uma geográfica, consequência de um certo desconhecimento do País, que é muito “bem”. As vantagens psicológicas da capital são subtis e percebem-se sobretudo nas conversas, no tom algo displicente do lisboeta, num gosto de falar desembaraçado e explicado e que termina muitas vezes por «pe(r)cebe?».

A razão geográfica é determinante. Para cima é o Norte, com vocação para caceteiro, ou parolo, ou as duas coisas. Para Sul é o Alentejo das barrigas açordeiras e o Algarve, enquanto e só imensa orla de areia. E mesmo o facto de o Alentejo se ter transformado em moda, o lisboeta, ao apreciar-lhe os vinhos e ao comprar-lhe montes e herdades, encontrou a fórmula de aumentar o estatuto, reforçando, portanto, a capitalidade económica, social e política. Ou seja, factores sociológicos de peso.

A presunção da capital não seria grave (noutros países se sofre do mesmo) se não acrescentasse desequilíbrio entre Lisboa e o País. Que não é só económico, mas também social e psicológico. E isto ainda seria suportável se não fosse o irrespirável processo de noticiar Lisboa, promover Lisboa, encherem-nos com tudo o que Lisboa faz, mesmo que não interesse a ninguém, a não ser aos condóminos, claro. Aspecto irritante, sobretudo quando se faz melhor na “Província”; coisa que o lisboeta não consegue entender, até porque a comunicação social, vítima da mesma mentalidade, e como se todos os outros factores não bastassem, lhe acrescenta todos os dias o ego e o autismo.

Mas não adianta lamentar. Não tem emenda. Seriam necessários políticos de grande envergadura e coragem e uma comunicação social inteligente e com visão nacional. São as cidades da “Província” que têm que puxar pela vida, e unirem-se, em vez de entrarem em competições mortíferas. E sobretudo criarem redes e mecanismos interactivos de produção intelectual, económica, científica e cultural. E de valorização e difusão das suas realizações. Produzir a todos os níveis para criar autonomia. Produzir, usufruir, divulgar.

O que cá se faz é muito e é disso que temos que ter consciência. Para que possamos fazer muito mais e muito melhor. Quanto mais e melhor fizermos, mais condições temos para fazer. Mais e melhor. E para que cada vez tenhamos menos a ideia de que tudo se passa em Lisboa. Devemos ter a exacta medida das coisas, mas isto tem dois sentidos.

Não devemos cair na tentação de achar que o que cá se faz é sempre o melhor, vício em que cai o provinciano, nem considerar que, se é de cá, não pode ser grande coisa, vício em que o pedante costuma cair.

Um, encorreado e granítico, diz sempre que a sua terra e o que nela há é o melhor, ficando cego a todas as evidências; o outro, derretido como a manteiga para tudo o que lhe cheira a civilização, põe defeitos em tudo o que se faz na sua terra.

|as beiras|

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