domingo, junho 26, 2011

Um buraco chamado Lisboa





Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.

O problema não é novo. Quem leu a "Queda de um anjo", de Camilo, sabe que este maléfico magnetismo já era poderoso mesmo num século como o XIX onde o Porto liberal, invicto e vitorioso da Guerra Civil, viveu um dos períodos de maior esplendor da sua história.

Ao nacionalizar os grupos económicos que viviam à sombra da protecção do Estado Novo, o 25 de Abril abriu o espaço para a emergência, a Norte, de uma nova geração de empresários, de que Belmiro de Azevedo e Américo Amorim são as cabeças de proa, que mudaram a face do país.

O poder económico deslocou--se para Norte, onde uma impressionante multidão de PME produtoras de bens transaccionáveis salvaram, com as suas exportações, o país da bancarrota.

Os empresários do Norte não ficaram à espera das privatizações e aventuraram-se a criar os primeiros bancos privados (BPI e BCP) após a revolução, numa altura em que os velhos capitalistas ainda mantinham bens e famílias na Suíça e no Brasil.

Cavaco pôs um ponto final a esta fase de desenvolvimento harmonioso e liberal da economia do país ao usar o programa de privatizações para fazer renascer os grupos engordados à mesa do salazarismo. Nenhum analista político e económico honesto deixará de identificar a década cavaquista como o período em que os portugueses, anestesiados pela chuva torrencial de dinheiro vindo de Bruxelas, consentiram na construção de um estado ultracentralista e fecharam os olhos ao nascimento de dois monstros (o do défice e o da Função Pública).

Fernando Gomes foi o líder que capitalizou a nível político o poder económico da região, que já se deslocava para o buraco negro lisboeta. A proclamação pela UNESCO do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade, o metro do Porto, o Parque da Cidade, o Porto Capital Europeia da Cultura, a Casa da Música são as marcas deste período áureo da metrópole que, com o seu porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro, é a cabeça natural da mais empreendedora região do nosso país.

Apesar de ser o líder respeitado de uma região e de estar informado das desventuras na capital do fidalgo minhoto Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (o herói da novela camiliana), Fernando Gomes não resistiu ao cântico das sereias lisboetas e na primeira oportunidade trocou a vista da Avenida dos Aliados pela do Terreiro do Paço, com o resultado conhecido (o suicídio político).

A contínua migração para Lisboa de líderes e massa cinzenta tem de deixar de ser uma fatalidade.

Para ressurgir, a Região Norte precisa de políticos que olhem para o Porto, Aveiro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Bragança, Viseu, Guarda e Vila Real como pontos de chegada - e não como pontos de partida.

|JN|
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2 Opiniões

At domingo jun 26, 08:12:00 da tarde, Anonymous zangado said...

A região Norte precisa não só de políticos que a defendam, mas também de uma grande mudança de atitude e de mentalidade em muitos nortenhos que, por diversas razões se têm calado, consentido e até vendido perante os interesses e o centralismo lisboeta. Basta ver quem são os deputados eleitos pelo distrito do Porto nos "principais" partidos: lisboetas e outros estrangeiros ao distrito,outros de cá mas benfiquistas ou do Belenenses, muitos outros políticos que são deputados há muitos anos e nada fizeram em defesa da cidade, seu distrito e Norte pois trocaram os nossos interesses por subidas no partido e lugares de confiança governamental. Alguns nunca trabalharam na vida real, passaram das jotas ou de juntas de freguesia para acessores e agora para deputados.
O que o Norte e Portugal precisam é de gente com coragem e disposta a enfrentar a comunicação social lisboeta e os interesses a que está ligada, lutando pela nossa autonomia política, administrativa e económica contra, como refere e bem o autor, o plano inclinado que leva tudo, desde o dinheiro até aos quadros e sedes de empresas para a região de Lisboa.
E acabem de falar em regiões tipo NUTs II pois o que está em causa não são instrumentos tecnocráticos mas, pelo contrário, regiões ligadas por laços económicos, culturais e mentais e não invenções de "regiões" criadas pelos boys de Cavaco Silva que, tal como Sócrates se fartou de dar o dito por não dito, ou seja mentiu e enganou os portugueses.
O grande problema é que a maioria das pessoas em Portugal tem memória curta e está "colonizada" e intoxicada pela comunicação social e acreditam nisso que ouvem ou lêem pois uma mentira dita muitas vezes leva as pessoas a acreditar que é verdade.
Ora, os problemas do Norte e de Portugal são sentidos por todos, seja qual for o seu clube, partido ou religião, todos sofrem com a insegurança, a saúde, a educação, a justiça e muitos outros casos.É preciso correr com os aldrabões que pululam nos partidos políticos e mudar, efectivamente, o que está mal, começando pela discriminação a que estamos há décadas submetidos.Só falar em democracia não chega, é preciso banir e castigar os culpados e não deixá-los ficar impunes, como até agora.

 
At segunda jun 27, 10:36:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

O que o nosso País precisa é de individualidades com envergadura intelectual e política capazes de pensar a longo prazo o nosso desenvolvimento. E que sejam capazes de projectar as nossas condições de desenvolvimento para o futuro que nunca é compatível com a obtenção rápida de resultados para ganhar eleições.
Por outro lado, isto implica também a mudança de comportamento pessoal e profissional, para possibilitar a contratação de quem tenha 'a espinha dorsal direita' e não de quem a tenha curvada aos 'jeitos' de quem calha e que se convence que a isso tem direito divino ou natural.
Por tudo isto é que não temos uma 'sociedade de jeito' mas uma 'sociedade de jeitos' onde ninguém paga a ninguém, mas todos pagam muito a muito poucos.
Continuamos uma sociedade intoxicada.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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