terça-feira, abril 17, 2012

O Porto e o Norte


Os fundamentos da contestação regional do Norte radicam nos défices de participação política e de acesso aos investimentos públicos de que a região se sente vítima relativamente à região de Lisboa, sentimento agudizado à medida que são canalizadas somas crescentes para projectos de grande envergadura na área da capital.

Estimulados por certos indicadores que a definem como região mais promissora da economia nacional e brandindo o símbolo de berço da nacionalidade, os dirigentes do Norte dirigem-se ao sistema político com reivindicações de tom desafiador, procurando inverter a subalternidade a que o poder sediado em Lisboa os tem remetido.       

A interrogação que todavia se coloca é a da representatividade sócio-territorial que o discurso destas individualidades se pode legitimamente atribuir. Ou seja, qual o grau de adesão colectiva à retórica identitária, contestatária e, por vezes, de regionalismo agressivo que alguns deles proclamam?

E qual o grau de aceitação que a liderança regional ensaiada pelas elites do Porto gera junto dos corpos dirigentes das regiões do Minho e de Trás-os-Montes, também elas integradas no âmbito do "Norte"?  

Em termos de movimento social, não há qualquer indício de que a região Norte, como qualquer outra portuguesa, esteja receptiva a uma gramática identitária de tons autonomistas ou separatistas.

O regionalismo fundamentalista está pois longe de qualquer efeito social duradouro. Na verdade, nem esse parece ser o propósito dos que apelam à unidade regional do Norte e à defesa dum modelo de descentralização que lhe faculte um espaço acrescido de autonomia administrativa.

O Porto não é geralmente contraposto ao país em geral. Apenas um centralismo político-burocrático edificado em Lisboa, considerado usurpador de recursos que deveriam ser equitativamente distribuídos por todo o País.        

Por outro lado, a pretensão hegemónica dos dirigentes do Porto sobre a Região Norte não corresponde às expectativas que as elites minhotas e transmontanas, sediadas em Braga, Viana do Castelo, Vila Real ou Bragança, depositam na regionalização.

A submissão a um poder regional irradiado a partir do Porto parece, por vezes, menos aceitável que a manutenção da actual hierarquia administrativa .   

Na realidade o Norte concentra sub-regiões com níveis de desenvolvimento muito diversos. Zonas que se desertificam coexistem com núcleos prósperos, áreas com capacidade organizativa e elites dinâmicas são acompanhadas de espaços sem vitalidade política e sistemas produtivos modernizados. Os efeitos de fragmentação que daí resultam não constituem o quadro empírico mais apropriado para a assumpção de identidades partilhadas, correspondentes a formas de vida, projectos e interesses de facto homogéneos.

Muito embora no Porto se difunda um conceito de região unitária - a que se outorga uma essência cultural que virá já da fundação da nacionalidade - enquanto espaço económico e sócio-cultural a administrar em conjunto, a heterogeneidade domina a fisionomia do território, onde desde logo a um litoral expansivo e consolidado se opõe um interior deprimido e desestruturado.

Sobrevêm portanto discrepâncias sócio-espaciais arduamente enquadráveis na comunidade de valores e de interesses configurada no plano discursivo.  (Cf . Daniel Francisco “La Régionalisation au Portugal, projet et paradoxes”)


Finalmente, a própria classe dirigente estabelecida no Porto encontra-se cindida por uma grande concorrência de interesses pessoais e institucionais. A força de agregação que um projecto de regionalização comum pode exercer nessa miríade de interesses e de poderes não é negligenciável, mas essa permanece ainda uma questão em aberto.

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5 Opiniões

At terça abr 17, 02:45:00 da tarde, Anonymous 'Amigos de Montalegre' said...

Hoje: os AdMontalegre homenageiam (n seu Blog) Jorge Nuno Pinto da Costa; Àmanhã: comentam o V/ artº "Porto e o Norte",n levem a mal !
Cumprts Nortenhos
dos AdMontlgre
Viva o Norte
http://amigosdemontalegre.blogs.sapo.pt/
....................

 
At quarta abr 18, 03:49:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Amigos eu não quero ter nada a ver com a Madeira por favor... Sou do Norte e esse é o meu problema.

 
At quarta abr 18, 08:52:00 da tarde, Anonymous inquietas.mentes said...

Se VExª é do Norte e e esse facto constitui um problema p Si, então talvez também seja um problema nosso.Faça favor d dizer cá à malta do Norte se precisa d alguma ajuda em matéria de Regionalização, q nós faremos o possivel p o ajudar.
Saudações nortenhas.
Viva o NORTE.
"i.m"
.....

 
At quinta abr 19, 04:09:00 da manhã, Blogger al cardoso said...

Embora nao seja do "Norte", (sera que nao existe um pouco mais de imaginacao e, dao a esta regiao um nome sem ser a sua identificacao geografica) mas sim do "Centro". (nome que abomino pela mesma razao).
Reconheco que provavelmente tera pelos Minhotos e Trasmontanos, mais aceitacao uma regiao em que nao haja nenhuma centralidade, mas que tudo estivesse distribuido, por toda a regiao!
E precisamente o mesmo que advogo para a Beira, que e como gosto de chamar ao bendito "Centro"!

 
At quinta abr 19, 03:11:00 da tarde, Anonymous claudio said...

centro sao as beiras.. mas norte é douro minho tras-os-montes.... iria ser complicado um nome que agradaria a todos.... eu acho que norte é bom! porto e norte, a par com lisboa e vale do tejo (porque nao ser só vale do tejo/ribatejo? o que lisboa lá a fazer no nome?)

 

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