segunda-feira, junho 18, 2012

Douro

Pessegueiro: um sonho francês vinte anos depois.

Um investimento de dez milhões de euros numa adega em tudo surpreendente faz do novo projecto francês no Douro um caso sério para o sucesso.

Ninguém sabe verdadeiramente explicar como é que alguém pode apaixonar-se por uma paisagem, se é o que se vê, se é o que se ouve ou o que não se ouve, se é o que cheira ou se é o que se sente como se isso fosse uma espécie de resumo do resto.

Roger Zannier chegou ao Douro pela primeira vez há mais de duas décadas e sentiu isso, essa coisa que não se explica - ou que não vale a pena explicar - como se de repente estivesse a olhar para o lugar onde o mundo começou: as rugas da terra, o rio morno e levemente calado, o vinho posto quietam na sua forma inicial de uva e o Sol numa inclemência a denunciar o inferno nos dias de maior rigor. Vinha de Braga, para onde o haviam levado os seus negócios do sector têxtil e chegou ao Douro porque alguém lhe disse que não fazia sentido deixar de conhecer aquele pedaço de mundo.

Comprou três quintas - numa altura em que o metro quadrado do Douro, pelo menos do vinhateiro, já começava a ser proibido - e deitou-se num sonho. Chamou-lhe Quinta do Pessegueiro. Agora - ontem - esse sonho, regado com o adubo forte de dez milhões de euros, abriu as portas: "Construiu uma adega e uma casa com a marca de um requinte que vai contribuir para reforçar a posição do Douro nos destinos nacionais e internacionais. O seu objetivo primordial é claro: produzir o melhor vinho português através dos métodos ancestrais de gravitação. A adega, além de recriar as técnicas de gravitação para produção dos vinhos Quinta do Pessegueiro, impressiona pelo seu estilo arquitetónico simples mas, simultaneamente, imponente e majestoso.

A casa, uma propriedade privada de apoio à estrutura de trabalho, que dista sensivelmente três quilómetros da adega, funde-se na paisagem do Douro, num estilo que une de forma subtil a tradição duriense com o design mais moderno e luxuoso, concebido à imagem do seu proprietário".

Está muito bem, é um documento oficial e tinha que exagerar. Ou talvez não: a Quinta do Pessegueiro, em Ervedosa do Douro, S. João da Pesqueira, é um luxo no meio de uma paisagem de luxo e todos os proprietários têm apostado no luxo como única forma de isolar a terra ancestral do Vinho do Porto de todos os outros destinos inevitavelmente luxuosos do mundo.

Mesmo assim, o Pessegueiro surpreende. Desde logo pela sua adega - traçada com o rigor dos arquitetos do prestigiado gabinete Oito em ponto - e que é uma espécie de torre onde as uvas chegam e vão caindo em sucessivos socalcos até chegarem ao sítio onde, em pipas, vão estagiar. O processo, como conta o enólogo responsável, João Nicolau de Almeida, não é um acaso: a intenção é a de as uvas, o mosto e em seguida o vinho não serem tocados por bombas de sucção (ou outras) que estraguem a suavidade ou belisquem a naturalidade do composto. Tudo naquela adega é feito em função da natureza da gravidade. Tudo cai, até às pipas.

Dali vão sair três tintos, um branco, um rosé e um Porto que nunca será menos que LBV e que levarão no lugar do preço a marcação de dez, 20 ou 50 euros - qualquer coisa assim. O plano de negócios ainda não está totalmente fechado, revelou o diretor-geral, Marc Monrose, porque ainda não está totalmente definido que vinhos vão chegar aos mercados. Não é possível, por isso, adiantar desde já o volume de negócios que o grupo francês pretende atingir com o negócio português. Mas essa não parece ser uma preocupação muito grande de Roger Zannier: não espera que o retorno do investimento lhe chegue aos cofres senão dentro de uns dez anos, afirmou.

O que já está fechado é que parte substancial da produção irá para os mercados de exportação - e os conhecimentos que o grupo tem em virtude dos seus negócios vínicos na Provence podem, em diversos mercados, ser um esteio que os vinhos da Quinta do Pessegueiro poderão seguir com facilidade acrescida. Menos no que tem a ver com a França: "Ninguém compra vinhos portugueses em França - o que é normal, dado que o país é produtor e, como todos os portugueses sabem, os vinhos que cada povo produz são, para si, os melhores do mundo".

E depois há ainda a casa - que faz parte do investimento de dez milhões - sumptuosa, quase excêntrica nos seus labirintos formais e, desgraçadamente, fechada ao comum dos mortais: é só para os amigos, clientes e restante mundo VIP que Roger Zannier escolher. Uma pena.
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António Freitas de Sousa, Económico

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