Regionalização / Tradição

Dinamizada do ponto de vista discursivo, a regionalização viu-se pois sucessivamente debilitada no plano das práticas. Associada a imperativos de democratização e de eficácia da actuação pública - nomeadamente no que à correcção das assimetrias inter-regionais de desenvolvimento diz respeito - suscitou consensos à direita e à esquerda. Esse consenso não desaguaria contudo numa actuação conforme por parte das forças partidárias.

A democratização da vida política terá aparecido aos partidos filtrada pelas estratégias necessárias à sua implantação dentro do aparelho central do Estado, objectivo fundamental a atingir, e não através de qualquer pretensa descentralização regional.

Por seu lado e em consequência, a eficácia do Estado, do ponto de vista do modelo descentralizado a seguir, não encontrou correspondência nos modelos de acção considerados mais adequados pelos actores no sistema tendo em vista a sua própria eficácia política ou a do grupo a que pertenciam.

Pensamos que um dos dramas da regionalização foi o de não ter servido duravelmente qualquer estratégia de poder duma elite específica. A mobilização quase exclusiva das energias partidárias para conquistas no núcleo central do Estado acarretou a difícil percepção, para os actores em jogo, das vantagens do nível regional para os seus percursos individuais, o que contribuiu para os consecutivos adiamentos da regionalização e até para a recentralização do sistema político, verificada com a afluência dos Fundos Comunitários.

Aparentemente, todas as tarefas administrativas poderiam cumprir-se no funcionamento articulado do poder local com a autoridade central. A tradição caucionava esta ordem de coisas. No Estado-Nação mais antigo e homogéneo da Europa, apenas se fala de duas tradições, a centralista e a municipalista. Historicamente caminharam lado a lado, embora com forte ascendente da primeira sobre a segunda. A tradição das regiões e do regionalismo não existe em Portugal, onde a história não documenta sequer a existência do fenómeno feudal.


Daniel Gameiro Francisco
- Faculdade Economia da Universidade Coimbra

Comentários

A. Castanho disse…
Não sendo especialista na matéria, não quero contudo deixar de relembrar importantes referências históricas que contradizem um pouco a afirmação de que não existe tradição regionalista em Portugal.

Já para não falar do sintomático "Reino dos Algarves" - aliás, base indiscutível da mais consensual das futuras Regiões -, são de considerar designações régias como "Príncipe da Beira", que inequivocamente identifica uma outra futura Região (ainda que, hoje, mais conhecida pelo tecnocrático nome de "Centro"), título ainda pertencente ao actual herdeiro da Coroa.


Em todo o caso, a muito feliz sub-divisão e nomenclatura das onze Províncias continentais, que continuam plenas de significado goegráfico, identitário e sociológico, parece-me mais do que suficiente para servir de base à criação de consciências regionais sólidas.


Nem se pode estar sempre à espera de que a tradição sustente tudo, senão nunca teria havido sequer Países como a Itália, a Alemanha, os próprios Estados Unidos...
Anónimo disse…
"No Estado-Nação mais antigo e homogéneo da Europa"

isto é pa rir não?
Portugal após passar o Mondego deixou de ser um estao nação.
Portugal tem várias nações, o Portucale Galego até ao Mondego, a Lusitânia e o Reino dos algarves. Várias nações, com etnoformações bem diferentes e tradições e pronuncias bem diferentes também.

Estado nação era se falassemos de um país da Corunha ao Mondego.
Ou de um Reino dos algarves independente.
Agora Portugal não, Portugal é uma amalgama de nações e não tem nada mas mesmo nada de homogéneo.
Anónimo disse…
"Nem se pode estar sempre à espera de que a tradição sustente tudo, senão nunca teria havido sequer Países como a Itália, a Alemanha, os próprios Estados Unidos..."

O exemplo da Itália é parecido com o Português.
A Itália norte é muito mais industrializada e com um povo muito capaz a nivel empresarial contrasta com um Sul pobre e miserável em iniciativa empresarial.

É parecido com o caso Portugu~es, em que o norte é que tem iniciativa privada, as grandes empresas nascem no norte, etc, mas como é uma autentica colonia de Lisboa, não é desenvolvida e neste momento encontra-se no estado que esta.
O Sul suga o sangue do Norte.
Em Itália ao menos conseguiram o Federalismo.
Mas o norte continua a lutar pela independencia, pois como no caso de Portugal são bem diferetnes do Sul, etnicamente, historicamente, economicamente, tradicionalmente, etc..

A Itália do Norte, devia ser um exemplo pros nortenhos
A. Castanho disse…
A Itália NÃO é uma República Federal. A Alemanha sim, apesar de ser constituída por apenas UMA Nação. "Estranho", não?


Ou será que os nossos caros especialistas em nacionalismos também têm uma versão étnica lá muito sua para a existência dos Estados Federais alemães?...
Pedro disse…
Caro António Castanho:

Muito bem dito.
Este Anónimo é tão ingénuo na sua obsessão sem sentido e infantil que nem percebe o mal que faz à regionalização. "Mal que faz" Enfim também não exageremos, não é por causa de uma toleima ou outra em comentários neste blogue ou em outros, que se perde referendos(se for por referendo)- mas muitas gotas no oceano têm o seu peso.

Cumprimentos
Anónimo disse…
É bem verdade...


Obrigado Pedro e os meus cumprimentos também para si,


Ant.º Castanho.