segunda-feira, junho 16, 2008

Bragança - Zamora

Bragança - Zamora: a construção de uma região

Desdenhada pelo outro distrito da Província de Trás-os-Montes, a população do Distrito de Bragança tende a aproximar-se das populações das Províncias de Zamora e de Salamanca, com as quais confina, respectivamente, a Norte e a Leste, e a Sudeste. A Galiza, ainda a Norte de todo o Concelho de Vinhais, confirma o sentimento da perda da identificação com um Portugal retrógrado, desdenhoso das suas raízes profundas, inculto, concupiscente dos êxitos fáceis mas nada valorizador dos traços de união e dos valores ancestrais que nos constituem como Povo.

A Galiza no seu eterno sofrimento de terra órfã é a irmã gémea de Trás-os-Montes, ela deserdada de Espanha, a pátria de Torga deserdada de Portugal, faz parte do nosso coração inconsciente, do nosso drama geográfico, económico e cultural, que queremos expurgar. Por isso, com uma grande injustiça, e atraiçoando os laços de sangue, abandonámos esta irmã sofredora com a qual partilhámos uma dor profunda de oito séculos e meio de isolamento, de abandono e de lágrimas de fado, perdidas nas cantigas de amigo e de amor.

Qual novo-rico que abandona, envergonhado, o irmão pobre, abandonámos a Galiza e irmanámo-nos simbólica e realmente com Zamora, sobretudo, talvez, na ânsia de ir mais longe; à descoberta da libertação psicanalítica na terra dos «nossos avós», na Bourgogne de França. Os tratados de Alcañices e de Babe unem-nos porque Tordesillas, para lá de Toro, divide-nos e cava a sensação profunda de um lugar dominado por um outro que nada tem a ver nem connosco nem com o nosso imaginário afectivo-cultural. Um outro que oprime igualmente Zamora e que nos faz unirmo-nos numa festa de emoção libertadora que, uma vez descarregada, pode matar, no choque brutal com a realidade.

As regiões de Bragança e de Zamora trataram de ultrapassar as suas fronteiras simbólicas: a Fundação Rei Afonso Henriques, a Comunidade de Trabalho Bragança-Zamora, os programas conjuntos de candidatura ao INTERREG, que já possibilitaram o «voo» do aeródromo de Bragança, os programas de geminação de cidades, as feiras e exposições comuns, os negócios da economia e, mais recentemente, o traço de união do e com o passado, através dos fantasmas que nos unem e queremos exorcizar – as máscaras e os caretos.

O que os nossos jovens já conhecem é uma história de relativa amizade e cooperação, entre Bragança e Zamora. Os povos unem-se para ganharem força mas, para já, é a força das elites que está nesta busca de união. E a força destas elites manifesta-se na fuga ao povo e à sua cultura, fuga que se espelha na lonjura e na altura da Ponte Internacional de Quintanilha ou, como dizia Ivan Illitch, as novas estradas unem os ricos e isolam e destroem ainda mais os pobres e os alicerces da cultura.

Como tinhas razão, na tua futurista visão de finais dos anos 60 do Século XX, Ivan! Ou, como me dizia uma professora da Galiza, Maria Xosé Beiras, a trabalhar em Huelva, lá muito no Sul de Espanha, e que queria vir a um Congresso internacional que organizámos em Bragança, em 2005: «Porra, como é que chego a Bragança? É mais fácil ir à Islândia!»

Por isso, mais uma vez na sua história, os distrital-Bragançanos me parecem equivocados na sua abordagem a esta nova irmandade. Com efeito, arredar dela o povo, o povo que não pode subir à ponte nem ir e vir a Zamora, de autocarro, no mesmo dia, e vice-versa, é desenhar um castelo no ar. O povo ainda não canta nem dança nesta nova irmandade. Nem faz novas máscaras. E raramente enlaça a sua fraternidade na força da vida: a união sexual.

Por isso, ultrapassar esta fronteira física que separa os dois povos, ultrapassagem que permitirá pô-los a dançar e a fazer amor, é fundamental. Pensem nisso, ó senhores dos poderes organizadores.

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3 Opiniões

At terça jun 17, 10:49:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Em tempos já abordei aqui o perigo das aproximações às Regiões Autónomas de Espanha que confinam com as nossas por intermédio da fronteira. E então referi que a regionalização se não for implementada a bem será à força, nem que seja com associação às congéneres espanholas.
Este movimento será inevitável e não existe nenhum estratega político que preveja as consequências, em termos de independência nacional, da não implementação da regionalização autonómica porque a administrativa já se revela insuficiente, inócua, atrasada e burocrática.

Assim seja, amen.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 
At terça jun 17, 02:37:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

prefiro estar com Leão independente do que com este "Portugal" independente.
O Norte tem mais a ver com a Galiza e Leão, principalmente o Nordeste.

 
At quarta jun 18, 09:35:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caro Anónimo disse das 02:37:00 PM

O que escreveu tem todo o sentido, confirmado tanto pela herança histórica como pela idiossincrasia homogénea dos povos que integram tais territórios.
A regionalização autonómica iria também contribuir para uma integração plena, mas com os próprios interessados regionais a definir as respectivas estratégias políticas e a implementar as acções mais acertadas de desenvolvimento equilibrado e autosustentado.
Com a regionalização autonómica, nunca tais estratégias nem as acções políticas sequentes iriam ser definidas e estabelecidas por políticos centralistas e profundos desconhecedores das 7 realidades regionais autonómicas.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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