quinta-feira, julho 17, 2008

O Interior


Não há dúvida que a qualidade de vida no Interior é muito melhor que no Litoral...

Hoje em dia, o Interior tem infra-estruturas (autárquicas) semelhantes ao Litoral, como Escolas, Piscinas, Pavilhões Desportivos, Estádios, etc. Em termos de redes rodoviárias, felizmente, a coisa compôs-se nos últimos anos, só falta uma verdadeira reforma nas estradas nacionais e regionais.

As universidades de Trás-os-Montes, Beira Interior e Alentejo são excelentes exemplos de dinamismo educativo no Interior.

As infra-estruturas a nível de saúde eram boas, até vir este (des)governo encerrá-las; o que falta são profissionais que queiram vir para o Interior.

Em termos de infra-estruturas, falta ao Interior apenas o comboio, que está há décadas a ser apunhalado, com as linhas a serem desmanteladas.

Por outro lado, há a vantagem de a vida no Interior ser mais tranquila, menos stressante, e haver mais qualidade e melhores preços na habitação, e nos bens essenciais, muito por culpa da Espanha estar mesmo aqui ao lado.

Em quase todos os concelhos do Interior vê-se planeamento urbanístico, valorização e preservação do património histórico e natural, enquanto que no Litoral vêem-se amontoados de betão desordenado; e as pessoas vivem sós, num ambiente desumanizado. A poluição é muita, e o contacto com a natureza é nulo (como deixamos que haja crianças que pensam que as maçãs nascem nas cestas dos hipermercados?).

É pena que o nosso país despreze as regiões interiores. Falta visão global e de futuro aos nossos empresários. Só para dar um exemplo, acho incompreensível que a excelente zona industrial de Vilar Formoso (vendida a 0,50€/m2) esteja praticamente vazia, estando ela numa posição central em termos Ibéricos, no centro do "triângulo" Porto-Lisboa-Madrid, e conectada com as redes principais a nível rodoviário e ferroviário...

É pena que continue tudo na mesma... O Interior foi votado ao abandono, esquecendo-se o nosso país do que nos tem para dar. Porque estamos tão dependentes do exterior em termos alimentares?Trás-os-Montes, Beira Interior e Alentejo são verdadeiros celeiros, têm capacidades agrícolas fantásticas, que estão por explorar.

Porque temos de importar tanta matéria prima? As regiões interiores têm espaço suficiente para se explorar várias madeiras, animais e plantas, e várias jazidas de minerais, que estão abandonadas.

Porque produzimos tão pouca energia e consumimos tanto petróleo? Trás-os-Montes e Beira Interior são regiões ideais para uma aposta nas eólicas e na biomassa; o sul da Beira Interior, o Alentejo e o Algarve são as regiões com mais horas de Sol por ano da Europa.

A mim faz-me confusão passar a fronteira e ver que, apesar de estarmos na UE há 22 anos, tudo continua a ser tão diferente do outro lado. Olho para a Beira Interior só vejo campos abandonados, matas abandonadas, aldeias abandonadas, erva a crescer por todo o lado (depois não admira que haja incêndios) e zonas industriais vazias.

Passando a fronteira, nas planícies de Castilla y León, vejo campos a produzir (e bastante), lojas cheias de produtos nacionais, matas bem tratadas, com vários camiões de madeira recém-cortada a circular, que logo é reposta com reflorestações, zonas industriais cheias de fábricas de dimensões consideráveis, uma rede urbana equilibrada e aldeias pequenas, mas estáveis. A terra é a mesma, as condições são as mesmas, apenas as pessoas são diferentes. E há uma linha que os separa, que embora seja imaginária, parece cada vez mais real.

No fundo, a resposta para grande parte dos nossos problemas está no Interior, mas os nossos políticos e empresários, as verdadeiras forças vivas de Portugal, continuam a ter uma visão, ela sim, provinciana do nosso país. Uma visão que está bem encaixada neste "Mapa de Portugal Actualizado" que um caro blogger de Foz Côa fez - ver MAPA.

Assim, caros amigos, não vamos lá.

O que falta ao Interior é autonomia. Temos bons exemplos, principalmente ao nível do poder local, de como o Interior se pode desenrascar sozinho, decidir autonomamente o seu futuro, potencializar-se ao máximo, inverter a desertificação e, até, atrair população. Estamos longe dos vícios das grandes cidades, somos pequenos de mais para que haja tanta corrupção como em Lisboa ou no Porto. E isso é bom.

Mas resistem a dar-nos autonomia, e mesmo quando querem avançar com a regionalização, insistem em manter-nos colados às regiões do litoral, como se Portugal fosse um eléctrico em que não há lugar para mais ninguém e o Interior tem de ir agarrado do lado de fora. Até quando?


Afonso Miguel
Beira Interior

3 Opiniões

At quinta jul 17, 02:44:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

O essencial da regionalização, para além da correcta caracterização alinhada pelo Afonso Miguel, consiste em criar condições naturais, ainda incompreendidas pelas impreparadas sensibilidades políticas actuais, para novas condições de desenvolvimento, a partir dos nossos próprios recursos, de base regional.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 
At sábado jul 19, 03:50:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

É tudo uma BANHADA! Falam em descentralizar mas centralizam tudo onde querem!
De uma forma ou de outra estão a capitalizar os serviços e CENTRALIZAR o poder pelas vossas cidades. Então um concelho como Barcelos? Não tem peso? Porque é que são sempre os mesmos concelhos a receber as infra-estruturas?
Boticas, Vila Flor, Lamego, etc não recebem nada?
Pois... São sempre os mesmos.. Braga, Guimarães, Porto.. blá blá blá. Isto não é centralizar?
Então falam que o interior está desertificado e ainda afastam mais os serviços desses concelhos?
Ainda têm a LATA de meter mais serviços como a "JUNTA REGIONAL" no Porto?
Então porque é que não a metem em Armamar?? Não é mais coeso e mais central que o Porto (que está no Litoral???)

Metam é os serviços no interior!

 
At segunda jul 21, 11:19:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

O caro anónimo não percebeu o meu post anterior, sobre a proposta de regionalização.
Defendo um mapa com 7 regiões:
*Entre-Douro e Minho
*Trás-os-Montes e Alto Douro
*Beira Litoral
*Beira Interior
*Estremadura e Ribatejo
*Alentejo
*Algerve
Defendo esta proposta para evitar precisamente o que referiu: a concentração de serviços no litoral. Claro que, numa hipotética região "Norte", os caciques do Porto levariam os serviços todos para a sua cidade, criando um novo Terreiro do Paço, a tal "capital regional".
Ora, as regiões não devem ter capitais. Os poderes e organismos devem estar separados geograficamente uns dos outros, até para evitar a criação de lobbies políticos. Logicamente, a Junta Regional de Entre-Douro e Minho não podia ser em Armamar... E o seu argumento de centralidade perde validade no contexto de uma região de Trás-os-Montes...

Se, no Entre-Douro e Minho, os serviços regionais se distribuiriam por cidades como Porto, Braga, Guimarães, Valença, Viana do Castelo, etc.; já nas regiões do Interior se poderiam distribuir também pelas suas cidades, por exemplo:
*Trás-os-Montes: Vila Real, Chaves, Bragança, Mirandela, Régua, Miranda do Douro;
*Beira Interior: Guarda, Castelo Branco, Covilhã, Pinhel, Vilar Formoso;
*Alentejo: Portalegre, Elvas, Évora, Beja, Sines;
etc.

Isto não é descentralizar?

 

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