quarta-feira, dezembro 24, 2008

Mundial 2018


Cada vez mais se fala na possibilidade de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha à organização do Mundial de 2018, com jogos em 8 estádios espanhóis e 5 portugueses. Primeiro tivemos a vontade das federações de futebol de ambos os países, e agora parece haver entendimento entre os dois governos, pelo que parece que a candidatura vai efectivamente avançar. Tudo bem - penso eu (e pensa a maioria das pessoas) - já que gastámos tanto dinheiro a construir estádios em 2004, esta é uma boa forma de os rentabilizar, e sem gastar quase dinheiro nenhum, vamos ter uma oportunidade fantástica para projectar o nome de Portugal lá fora, como destino turístico, melhorar a nossa imagem como país, e trazer excelentes dividendos para o desenvolvimento de 5 cidades portuguesas. Tudo aponta para que, realizando um Mundial a meias com os nossos vizinhos, Portugal consiga mais lucros do que conseguiu organizando sozinho o Euro 2004.

Pois é. Nada mais errado. Há aqui uma coisa que quase me escapava. Mas ontem, quando a SIC, televisão que, a meu ver, é uma das maiores defensoras do centralismo de Lisboa e arredores, emitiu uma reportagem apresentando uma "lista não-oficial" dos estádios que poderiam integrar a candidatura, fez-se luz na minha cabeça. Então não é que, tendo 8 cidades com estádios de topo por onde escolher, a referida lista contemplava apenas 4 cidades anfitriãs? Claro está, Lisboa tinha de ser discriminada positivamente e, como já tem pouca publicidade nacional e internacional (!!!), e é claramente uma zona a precisar de desenvolvimento turístico (!!!), há que propôr a candidatura dos dois estádios lisboetas, Luz e Alvalade.

Que o centralismo perdeu a vergonha já eu sabia. Mas, se isto se confirmar, é o cúmulo do desplante e do desrespeito perante as outras regiões de Portugal. Repare-se que, com este mapa (que contempla também Porto, Braga e Faro como estádios candidatos), a nossa terceira cidade, bem como toda a região envolvente da Beira Litoral (e cerca de 1/4 do território português, se contarmos com a Beira Interior), ficam literalmente a "ver a banda passar". A concretizar-se, é mais uma demonstração da grande preocupação da governação central pelo desenvolvimento do nosso país: sacrifica-se mais Portugal por mais Lisboa.

O mapa da SIC tem ainda o "dom" de aplicar a mentalidade portuguesa à realidade espanhola. Assim, os jornalistas portugueses pensam que, em Espanha, se vai avançar para a candidatura de 2 estádios em Madrid e mais 2 em Barcelona. Eu, sinceramente, acho isso muito pouco provável. Há uma coisa que nos distingue da Espanha: a Regionalização. E não estou a ver regiões como Castilla y León ou Aragón, com cidades fortíssimas como Saragoça, Valladolid ou Salamanca, a ficarem de fora de um evento desta importância. Nem o governo espanhol faria tal coisa. Em Espanha, as regiões têm uma importância enorme no quotidiano social, económico e político do país, e não se calam perante abusos centralistas. Em Portugal, como as regiões não existem, tudo é permitido.

Mas voltemos ao Mundial português. O nosso país tem infra-estruturas de topo em termos desportivos, em 8 cidades espalhadas pelo país: Braga, Guimarães, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Faro. Há, portanto, muito por onde escolher, muito por onde rentabilizar, e uma excelente oportunidade de levar turistas a cidades que são praticamente desconhecidas no estrangeiro, já que o esforço de Portugal em termos turísticos tem sido promover o Algarve, Lisboa e as ilhas. É preciso que, antes que seja cometida mais uma asneira deste calibre, os portugueses, nomeadamente a massa crítica das cidades prejudicadas, se movimentem no sentido de evitar mais um benefício a Lisboa. Senão, é mais do mesmo: tirar aos pobres para dar aos ricos. É o país que temos...

Afonso Miguel

3 Opiniões

At quarta dez 24, 06:07:00 da tarde, Anonymous sergio_alj said...

Só existem 3 estádios em Portugal com condiçoes de receber o Mundial!!

Não se esqueçam que nos jogos do Mundial os estádios têm que ter capacidade superir a 35 mil Lugares!!

 
At quarta dez 24, 08:13:00 da tarde, Blogger Afonso Miguel said...

Cada qual inventa sua regra nova! Nunca ouvi tal coisa! Aliás, já houve estádios com menos de 35000 lugares a receber o Mundial (ex. Vélodrome, em Marselha). Mais: se for preciso chegar aos 35000 lugares, basta apenas colocar bancadas provisórias (tal como aconteceu em Leiria e no Algarve em 2004). Isso não é desculpa para nada! O Mundial em Portugal vai ter 5 estádios, logo devem ser 5 cidades e não 3 cidades e a "capital do império".

 
At quinta dez 25, 07:41:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Estamos a 10 anos do evento e já começam a coordenar-se vontades para dar corpo a uma realização conjunta com o nosso vizinho territorial. Isto significa que, se os responsáveis quiserem, podem começar a planificar e a organizar as melhores formas de não só relaizar um determinado evento como de adptar uma determinada política ou a coordenação de diferentes políticas, com tempo, modo e medida.
Em qualquer país,a realização de um evento desportivo da dimensão de Mundial ou Europeu de futebol contribui sempre para a dinamização de diferentes actividades de natureza económica, onde as turísticas, gastronómicas e culturais assumem uma importância decisiva. Por isso, quanto mais alargada for a distribuição dos eventos desportivos (isto é, quanto mais jogos forem adjudicados aos estádios situados no nosso País) maiores serão os benfícios para as regiões onde tais infraestruturas desportivas estão instaladas. Também aqui é necessário evitar o reforço das centralidades desportivas ao adjudicar-se os eventos desportivos aos estádios situados só em Lisboa e/ou no Porto; aqui também, mas com muito maior intensidade, em estádios situados no interior e/ou em cidades habitualmente relegadas para segundo plano desportivo e político (e se algumas cidades do interior não estão para tal preparadas o fossem, agora?). E mesmo assim, o litoral continua a ganhar ao interior, infelizmente, no quadro das habituais assimetrias de desenvolvimento (económico, social, turístico, desportivo, etc., etc.).

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

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