terça-feira, março 10, 2009

Sabe quem são os deputados do seu círculo eleitoral?

Paulo Morais escreveu no JN a 4 deste mês que o “território, uma das nossas maiores riquezas, está votado ao abandono. Este é mais um sintoma do nosso subdesenvolvimento. Ou talvez uma das suas causas.

Uma viagem pelo interior de Portugal dá-nos hoje uma visão deprimente. Não há praticamente emprego. Por regra, a Câmara Municipal local é o maior empregador, logo seguido do sector público administrativo do Estado, das instituições particulares de solidariedade social e pouco mais. E isto nas sedes do concelho. Porque as restantes localidades são habitadas por reformados, ex-emigrantes e beneficiários do rendimento mínimo, do subsídio de desemprego ou de subsídios do Ministério da Agricultura. A maioria das localidades já nem tem sequer viabilidade económica.”

Quem, como eu, teima em viver no interior do país, Trás-os-Montes, no caso, sabe, saber de experiência feito, que Paulo Morais está certo: dois terços do território nacional foram abandonados pelos políticos. Por todos. Mais ainda por aqueles que nasceram no interior do país e, uma vez arribados ao porto de abrigo da governança, de pronto esqueceram que o engaço tem dentes! Desde a implantação da república que assim é!

A propósito das comemorações dos 200 anos do nascimento de D. António Alves Martins, Bispo de Viseu, Deputado, Ministro do Reino…, fui convidado para participar num livro - “Tempo, Escritos e Iconografias” - evocativo deste ilustre trasmontano. Porque a política me interessa enquanto actividade, não profissão, cujo único propósito é ser cidadão ao serviço dos cidadãos, optei por estudar o perfil de D. António Alves Martins na qualidade de Deputado.

Leitura puxa leitura, acabei por ler centenas de intervenções parlamentares de deputados por Trás-os-Montes referentes à segunda metade do séc. XIX. Horas de prazer, sem dúvida, tal a qualidade das intervenções!

Todavia, o que verdadeiramente me marcou foi o ter constatado que, naquele tempo, os deputados jamais se esqueciam que estavam como deputados e não eram, como são hoje, deputados. E estavam como deputados ao serviço da comunidade que os elegeu (quantas vezes guerreando o partido pelo qual foram eleitos) e não, como hoje, ao serviço de um partido que veneram temendo a exclusão das listas no caso de não serem serviçais.

Sou defensor da existência de círculos uninominais - aqueles em que os votos dos cidadãos que compõem esse colégio eleitoral são convertidos num único mandato, isto é, neste tipo de círculo apenas é eleito um representante. Deste modo saberíamos a quem pedir contas no final de cada legislatura.

Com o actual sistema, se eu ocupar o segundo lugar do círculo do distrito de Vila Real, seja pelo PS ou pelo PSD, e nada fizer para merecer o voto dos cidadãos tenho enormes probabilidades de vir a ser eleito. Quem é que ainda se lembra do nome do segundo deputado eleito da lista em que votou? E do terceiro? E do quarto?

Mas para os partidos o sistema está bem porque, convenhamos, os partidos vivem do sistema. Faço minhas as palavras de José Leite Pereira, director do JN, aí publicadas a 4 deste mês: “se os partidos são - como é cada vez mais evidente - coisa pouco interessante, talvez seja necessário voltar ao princípio, voltarmos a interessar-nos pela política, pela res publica, participando, discutindo e obrigando os partidos a mudar. É que sem eles não temos grandes hipóteses de sucesso. É preciso que todos voltemos à política.”

|Diário de Trás-os-Montes|

1 Opiniões

At terça mar 10, 12:29:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

O problema aqui apontado de subdesenvolvimento não é novo, tem centenas de anos e, ao nível do emprego, sempre foi assim. Apenas com uma PEQUENA diferença. É que, há 30 ou 40 anos, os campos encontravam-se cultivados mesmo em algumas encostas das serras como me fizeram recordar alguns habitantes de uma das aldeias do concelho de Freixo de Espada-à-Cinta. Hoje em dia, verifica-se o marasmo e o abandono de áreas cultiváveis ou de floresta e prados, totalmente ao abandono, assim como de algum património construído e arquitectónico característico de épocas mais ou menos remotas mas representativas de períodos prósperos, em termos económicos. Por outro lado, até as Cooperativas parece funcionarem como coutadas de alguns municípios e enfermam de uma quase total modernidade e eficácia de funcionamento e organização que impede o exercício de capacidades dinamizadoras da actividade económica ligada à agricultura em lugares, freguesias e concelhos e, pior de tudo pela sua gravidade, põe de rastos qualquer esforço de integração e complementaridade cooperativas (cada um quer ter a sua "coutada").
Recuperar todo este "processo" de vivência e de produção diversificada com base nos recursos próprios de cada lugar, freguesia, concelho e região, conseguidos no passado, não é retrocesso mas modernidade mobilizadora, não é passado mas futuro seguro que, infelizmente por consequências dramáticas, a crise actual vai acabar por lhe induzir uma importância decisiva na recuperação e na gradual mas lenta estabilização da vida material e comunitária das populações.
O esbanjamento de elevadíssimos montantes financeiros para equilibrar o sistema financeiro, não só no nosso País, vai constituir um poço sem fundo para viabilizar uma recuperação muito duvidosa só porque não assenta na dinamização da produção e da criação de riqueza com base nos recursos próprios existentes em cada sociedade ou lugar, concelho, região ou país, mas numa solução de conjuntura ou de apoio financeiro sem suporte material (económico) que lhe dê sustentabilidade e equilíbrio. É caso para afirmar que, mais uma vez, que os Governos preferem actuar sobre a convergência nominal (a solução mais fácil) em total prejuízo da convergência real (a mais difícil e exigente).
Esta crise não é alheia às fórmulas utilitaristas e maniqueistas de "desenvolvimento" das sociedades onde a alienação por via do consumo alimentado por endividamento excessivo (derivado do excesso de produção, do excesso de financiamento, do excesso de especulação, do excesso de tecnocracia, do excesso de servilismo em relação a quem manda a troco de uns "cobres", do excesso de zelo a raiar o "chibismo" ou a intriga (a especialidade lusitana), do excesso de competição entre os que pretendem vir a ser "os mais ricos do cemitério", do excesso de "lobing", dos excessos de não produtividade de quem tem mais responsabilidades de direcção, dos excessos de marginalização da produção directa e da criação imediata de valor - a produção) foi o principal detonador de todo um processo social onde a alienação impiedosa de princípios e valores constituiu e ainda constitui a alavanca fundamental.
Desta alavanca lá resultaram os novos deuses sem templo, efémeros e desiludidos: o dinheiro e os bens consumíveis, muitos destes mesmo sem chegarem a ser utilizados ou fruidos.
Enquanto todo este processo se desenvolvia, largos extractos da população mundial são criminosamente abandonados à sua sorte como se pode verificar sempre através dos órgãos de comunicação social, em que a divulgação da desgraça alheia foi transformada na nossa maior sorte deste Mundo, com isso procurando redimir-nos da nossa própria desgraça que não vem a caminho mas já está entre nós e com que força.
Já aqui escrevi que, tempos futuros serão também aqueles em que responsáveis políticos e todos os outros hão-de vir a ser julgados em Tribunal Penal Internacional dos Direitos Humanos pelas decisões que tiverem tomado de abandono de tais sociedades a viver em condições miseráveis (os roubos que vierem a realizar serão por isso relativamente insignificantes), enquanto a opulência e a desregra de caprichos e desmandos de toda a natureza (mesmo económicos e financeiros) alimentarem comportamentos de hipocrisia e de desdém das que se considera serem as sociedades mais evoluidas ou desenvolvidas.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 

Enviar um comentário

<< Home