sexta-feira, janeiro 15, 2010

Litoralização e desertificação do Interior: as consequências


Muitas vezes, em Portugal, é comum ouvirmos declarações de algumas personalidades dizendo que, para termos peso ao nível internacional, temos de ter mais população urbana e cidades (ainda) mais populosas. Muitos deles justificam até que Lisboa tem de chegar ao tamanho de cidades como Madrid ou Paris.

O que estas personalidades esquecem é que Portugal é um país pequeno e, apesar de não ter uma densidade populacional baixa, não tem dimensão suficiente para ter metrópoles de nível Europeu. A Comunidade de Madrid, por exemplo, concentra mais de 6,3 milhões de habitantes, mas tal, num país com a dimensão da Espanha, não é sinónimo de desequilíbrio populacional: num país com cerca de 46 milhões de habitantes, a maior metrópole espanhola não concentra mais que aproximadamente 14% da população espanhola.

Ao mesmo tempo, em Portugal, a Área Metropolitana de Lisboa e os seus 2,8 milhões de habitantes representam já cerca de 27% da população do nosso país. Ou seja, o peso demográfico da maior cidade portuguesa perante o total nacional é cerca do dobro do da maior cidade espanhola quando comparado com a população absoluta de Espanha.

Se podemos já considerar esta situação de forte desequilíbrio populacional, reforçado pelo forte despovoamento das regiões de Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Interior e grande parte do Alentejo, então que dizer da situação que teríamos se Lisboa chegasse ao nível populacional de Madrid? Teríamos mais de 60% da população portuguesa a viver em Lisboa e arredores, sendo que todas as outras regiões do país teriam de perder grande parte da população para se atingir este "objectivo".

Porque é que um país, para ser desenvolvido, tem de ter 80 ou 90% da população a viver nas cidades? A França, por exemplo, é um gigante europeu e no entanto 25% da sua população é rural! E não nos podemos esquecer que em países como este há muita imigração (ao contrário do que acontece em Portugal), o que contribui significativamente para o aumento da população urbana. Aliás, hoje as grandes metrópoles europeias crescem devido à forte imigração que registam, enquanto em Lisboa e no Porto o aumento contínuo de população se continua, como nos anos 60, e nos países sub-desenvolvidos do século XXI, a dever-se predominantemente a fortes migrações internas. Neste ponto, somos provavelmente caso único na Europa Ocidental.

Hoje temos um país desequilibrado, litoralizado. Como já referi, cerca de 27% da população vive na Área Metropolitana de Lisboa, e 18% na Área Metropolitana do Porto. Juntas, representam quase metade da população portuguesa! As regiões do litoral a norte do Sado concentram mais de 80% da população. Não é já tempo de parar?

Estes dois fenómenos a que assistimos (litoralização e desertificação do interior) têm consequências péssimas para o país. A litoralização faz com que haja cada vez menos qualidade de vida no litoral, faz diminuir a qualidade dos serviços prestados, aumenta a poluição e a pressão demográfica, com todos os problemas que lhe estão associados. A desertificação do interior impede que sejam aproveitadas todas as potencialidades dos territórios afectados (recursos naturais, aptidão para a agricultura e agro-indústria, posicionamento estratégico, etc.). A combinação destes dois fenómenos aumenta os custos para o país, pois os serviços no interior não podem ser fechados (por muito poucas pessoas que lá vivam, não podem ficar a 300 kms do hospital mais próximo), e os serviços no litoral têm de ser melhorados para dar resposta à população crescente (não pode haver concelhos de 100 000 habitantes com os mesmos serviços que existiam quando tinham 20 000).

Este problema é grave, e pode tornar-se insustentável para um país em dificuldades económicas. Para bem de todos, quer vivam no litoral quer no interior, urge resolvê-lo, não agravá-lo, que é o que infelizmente continua a acontecer.


Afonso Miguel

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7 Opiniões

At sábado jan 16, 05:39:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Sintomático !

Urge mudar de políticas.

Só com a regionalização é que será possível limitar o centralismo que tudo arrasta para a capital.

 
At domingo jan 17, 08:56:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

Já respondi no comentário do "post" seguinte.

Sem mais nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)

 
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