O mito da falta de qualidade de vida no Interior


Constato, muitas vezes, que, talvez motivado pelo desconhecimento, subsiste ainda algum preconceito quanto à vida no Interior.

Todos os que têm raízes no Interior conhecem a história de injustiça que tem sido praticada ao longo de décadas consigo e com as suas famílias.

O surto de emigração e migrações para o litoral apenas se estabeleceu devido à falta de condições de vida (não havia electricidade, água canalizada, transportes nem serviços de saúde...) e de empregos condignos (a agricultura era tradicional, sem apoios em caso de intempéries, e os trabalhos mal pagos nas poucas indústrias que existiam). A miséria foi muita, ao longo do século XX, no Interior. As pessoas iam-se embora, mas com o objectivo de voltar, na sua maioria. E o que é certo é que, quem pode, fê-lo, mas muitos outros criaram família longe e ficaram. Foi, e é, um problema social gravíssimo, digno de um país terceiro-mundista.

Hoje, as cidades do Interior têm maior qualidade de vida do que as do litoral. É claro que são cidades pequenas, e que há pessoas habituadas a meios urbanos que nunca se habituariam a viver em meios rurais. Mas também há imensas pessoas nos meios urbanos que, se convidadas a voltar ao Interior, não hesitariam.

Por muita oferta cultural e de serviços que haja, por muito bem servido que se esteja de transportes, não é essa a razão principal para muitas das pessoas do interior estarem, hoje, a viver no litoral. A razão continua a ser a mesma de sempre: no Interior há pouco emprego (a taxa de desemprego da Beira Interior já ultrapassava os 10% muito antes da crise...), e o que existe paga muitas vezes piores salários que no litoral. Depois há a lógica que tem pautado a nossa sociedade, da centralização de serviços, que obriga quem queira ter uma carreira profissional de sucesso a migrar para o litoral, principalmente para Lisboa.

A maioria da população do interior que migrou para o litoral vive, hoje, nos subúrbios das cidades de Lisboa e Porto. Têm melhor qualidade de vida do que se vivessem nas suas terras natais? Duvido. Aqui paro de constatar factos e dou uma opinião estritamente pessoal. Na maioria dos subúrbios vive-se mal: muitas pessoas vivem apertada em apartamentos, passa horas no trânsito ou anda em transportes públicos apinhados de gente, e acaba por ter uma vida demasiado agitada e stressante para sequer ter tempo e disposição para usufruir da maioria dos serviços de topo (nomeadamente culturais) que existem nas grandes cidades.

Pelo contrário, no interior, é mais fácil e barato arranjar casas maiores, as deslocações casa-trabalho são mais fáceis, e com facilidade acedemos à maioria dos serviços que necessitamos para o dia-a-dia (comércio, zonas recreativas, espaços verdes, repartições públicas, espaços de diversão...). A proximidade de Espanha tem também as suas vantagens (no interior raiano), pois há a possibilidade de ir ao país vizinho comprar algumas coisas que são mais baratas. Em suma, geralmente quem vive no interior gasta menos dinheiro e consegue ter uma vida com mais qualidade. A oferta cultural e educacional crescente (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade da Beira Interior, Teatro Municipal da Guarda, Teatro Municipal de Bragança, Centros Culturais, etc.) estão a tornar as cidades do interior exemplares em termos de cultura. Basta dar uma volta pelas cidades transmontanas, do interior beirão, e alentejanas, para constatar que estão bem dotadas de equipamentos.

A melhoria dos acessos faz com que, hoje se possa viver comodamente em muitas aldeias do interior, trabalhando e usufruindo dos serviços das cidades da zona. Por exemplo, aldeias como Castelo Bom e Castelo Mendo estão hoje a cerca de 20 minutos da Guarda, sendo perfeitamente possível morar nelas e trabalhar na cidade, sem grandes complicações. Basta ver que, por exemplo, da Azambuja a Lisboa se gasta 45 minutos numa viagem de comboio...

Aliás, comparando os concelhos suburbanos do litoral com os pequenos concelhos do interior, penso que estes últimos são tão bons, ou melhores, que em termos de infra-estruturas, bem melhores em termos de qualidade de vida, têm menores índices de indicadores tão determinantes como a poluição e a criminalidade, estão mais bem servidos de transportes, e as distâncias aos centros de serviços mais próximos (geralmente, as capitais de distrito) são praticamente iguais, e muitas vezes até maiores, sendo que o trânsito nas grandes cidades é incomparavelmente mais intenso...

O que faz, então, com que a população de concelhos suburbanos e das chamadas "zonas cinzentas" (de charneira entre o litoral e o interior) estejam a aumentar ao ritmo de 20%/década, e os concelhos do interior estejam em desertificação eminente? Apenas a oferta de emprego. O litoral é incomparavelmente mais pujante em termos industriais, e concentra mais serviços e sedes de empresas.

Concluindo, pessoalmente, acho que uma pessoa tem muito melhores condições de vida no interior, seja numa cidade ou numa aldeia, do que nos subúrbios das cidades. Basta ter emprego, coisa que no interior não abunda. É esse o grande entrave à fixação de pessoas no interior. Urge encontrar soluções para manter os que ainda existem, e procurar atrair alguma população.

Afonso Miguel

Comentários

india disse…
Bom dia Afonso. Vivo numa cidade do interior, Bragança, e lamento mas discordo completamente da sua opinião. No interior do país os empregos são mais precários, para além de inexistentes, os salários são mais baixos, as casas a um preço muito próximo de cidades como o Porto ou Braga, não há transporte público, não há acesso a formação superior em todas as áreas, não há acesso ao mesmo número de bens culturais (ou sequer à qualidade), resumindo, não tem qualquer comparação viver aqui ou no litoral. Digo isto porque já vivi no litoral com o mesmo salário e vivia bem melhor. Aqui só tem qualidade de vida quem tiver um bom salário e se não concorda ou não acredita, faço-lhe um desafio, mude-se para cá!
Afonso Miguel disse…
Caro(a) India:

Antes de mais boa tarde e obrigado por consultar o nosso blogue.
Neste artigo tentei salientar sobretudo os aspectos positivos que existem nas cidades do Interior. Muitas vezes, por desconhecimento de causa, as pessoas olham para o Interior como, desculpe-me o termo, uma autêntica parvónia.
Ora, se existem aspectos negativos (que aqui já referi em vários artigos), nomeadamente o que constatou no seu comentário, também há aspectos que podem tornar o Interior atractivo para viver.

Como escrevi neste artigo, o maior obstáculo à fixação das pessoas no Interior é a falta de empregos disponíveis e os baixos salários praticados. Estou de acordo consigo neste ponto.

Também tendo a concordar consigo quando diz que "Aqui só tem qualidade de vida quem tiver um bom salário". Porém, clarifico desde já que as vantagens da vida no interior que referi são aplicáveis sobretudo a famílias da classe média-alta, uma vez que há um conjunto de bens que é preciso possuir para se viver no interior, nomeadamente uma viatura própria, devido à deficitária cobertura de transportes públicos. Compreendo o que diz nesse ponto, pois centrei a minha observação na região que aqui represento, a Beira Interior, que é bem servida de ferrovia, face à inexistente rede ferroviária transmontana, que tem sido vergonhosamente desmantelada, num enorme exemplo de como é necessária a regionalização e a instituição das regiões de Trás-os-Montes e da Beira Interior para que haja organismos que zelem pelo bom funcionamento e manutenção das redes de transportes do Interior.

Quanto à educação e à cultura, o panorama já foi bem pior. A criação de universidades e politécnicos de qualidade nas nossas regiões fez aumentar muito a qualidade dos serviços e, se é verdade que não existe formação superior em todas as áreas, também é verdade que, à excepção de Lisboa, Porto e Coimbra, são raras as cidades onde isso acontece. Aliás, quanto a este ponto, conheço bastante gente do litoral, principalmente da zona do Vale do Sousa com a qual contacto frequentemente, que estuda ou faz tenção de ir estudar no ensino superior para Bragança ou Vila Real.
Talvez isto seja um sinal de que esta nova geração, à qual também eu pertenço, olha com outros olhos para o Interior, sem alguns preconceitos que infelizmente "enevoaram" a imagem que muitas pessoas têm destas regiões.
Quanto à cultura, penso que é natural que não haja a mesma oferta, e é certo que nunca se chegará ao mesmo nível de Lisboa ou do Porto, mas os municípios do Interior têm apostado bastante na cultura, nomeadamente através da construção de teatros (como o Teatro Municipal da Guarda ou o Teatro Municipal de Bragança), que, a médio-prazo, podem mudar o panorama cultural da região. Mas é claro que não teremos uma "Broadway" em nenhuma cidade do Interior. Porém, a cultura é um bem que faz quem o procura, inclusive as pessoas do litoral, a andar vários quilómetros para encontrar o que lhes interessa. Quero com isto dizer que não é por o interior não ter um nível cultural idêntico ao de Lisboa ou do Porto que perde qualidade de vida.

E não podemos esquecer a maior qualidade do interior, que é o facto de não se perder tempo em filas de trânsito e haver menos stresse, o que no litoral leva a que as pessoas não tenham sequer disponibilidade, muitas vezes, para usufruir dos equipamentos culturais e de lazer que lhes são colocados à disposição.

Em suma, a minha opinião é que, entre o litoral e o interior, quem tiver oportunidade de escolher, não se arrepende se escolher o interior para viver.

Cumprimentos,
Anónimo disse…
ENTÂO ESCOLHE TU Ó AFONSO MIGUEL IR VIVER PARA O INTERIOR! FALAS FALAS E NA PRÁTICA NADA!
ravara disse…
O dinheiro que o Estado deve ao estrangeiro, e todos devem alguma coisa a alguém, é um instrumento de troca por bens transacionáveis.
As pessoas podem prescindir de muita coisa, mas se não comerem e beberem morrem. Se Portugal tivesse esses bens transacionáveis, em qantidade suprior ás suas necessidades, poderia pagar por essa via; é para isso que os negociadores servem.
Entã porque razão hoje, esta proposta não é exequível? Porque temos tido uma governação de trinta anos de gente cobarde, para não dizer traidora, dos valores e dos bens nacionais, e é uma cobardia nossa não apurar-mos responsabilidades.
Anónimo disse…
Caros Regionalistas,
Caros Centralistas,
Caros Municipalistas,

De bom grado trocava o litoral pelo interior e quanto mais altitude tivesse melhor. Não tenho qualquer dúvida que o interior tem mais qualidade de vida que o litoral sobreurbanizado Basta, por exemplo, verificar que nas terras do interior as pessoas saudam-se quase automaticamente, em contraste com as grandes zonas urbanas do litoral onde as pessoas, mesmo vizinhas, raramente se cumprimentam. O estilo e a qualidade de vida não pderá +autar-se somente por ter mais ou menos dinheiro, mas por inventariar todos os recursos que poderão contribuir para um decisivo e qualitativo desenvolvimento.
Este inventário é diferente de freguesia para freguesia, de concelho para concelho, embora em ambos existam muitas afinidades de toda a natureza, e também de região para região.
Se esta inventariação de recursos for efectuada adequadamente, especialmente os relativos aos recusos humanos ou populações, identificando-lhes as sua valências, inclinações e vocações e for complementada pela acção de dirigents políticos dos mesmos territórios, haverá a certeza que muito mais desenvolvimento será ainda possível, mais qualidade de vida será conseguida, será reforçada a preferência por produtos nacionais, tanto interna como externamente devido à sua qualidade e diferenciação, pilares da competitividade global. E por fim, tudo isto conseguido, será possível redimensionar as empresas, reestruturá-las de acordo com objectivos e desígnios nacionais, estancar o sobre endividamento externo não só do Estado como das empresas privadas, eliminar progressivamente o défice das contas públicas, reduzir lentamente as assimetrias de desenvolvimento e, finalmente, passar a considerar o nosso País como um exemplar no quadro das sociedades mais desenvolvidas, depois de conhecido o caminho de uma convergência económica, social e cultural sustentada e assente na produção própria e na valorização da riqueza nacional.
É fácil de verificar que tudo isto só poderá ser viabilizado com uma regionalização autonómica incompatível com os protagonistas políticos e outros que vamos tendo mais de turno que estadistas, mais egocentristas que policentristas, mais inertes que dinâmicos, mais do passado (sem o respeitar) e do presente (sem o proteger) que do futuro (sem o perspectivar).
Finalmente, tudo isto com a obsessão minha e reclamada pelo Templário, mas a única solução para resolver estruturadamente os problemas endémicos da nossa infeliz sociedade.

Sem masi nem menos.

Anónimo pró-7RA. (sempre com ponto final)
INDIA disse…
Caro Afonso, concordo consigo e tudo seria bom se eu, como nova geração, pertencesse à classe média-alta. Infelizmente, e apesar da licenciatura e de exercer a profissão que escolhi, estou bem longe de alcançar esse estatuto e poder usufruir das vantagens que o interior oferece a quem escolha cá viver....
Afonso Miguel disse…
Caro(a) India:

Penso que o grande objectivo do Interior tem de ser atrair pessoas como você, de uma nova geração, e em início de carreira, e, principalmente, tentar manter os jovens que ainda existem nessas regiões. Porque tem toda a razão ao dizer que as vantagens de viver no Interior não estão acessíveis a todos.
Infelizmente, só estão ao alcance de uma minoria...

Cumprimentos,
B. disse…
As vantagens do interior vs litoral são apenas subjectivas: depende sempre da pessoa em questão e das suas preferências individuais e não podemos cair no erro de fazer juízos gerais.

Imaginemos uma pessoa que tenha um bom emprego na Administração Púlica. A menos que tenha intenção de fazer carreiras políticas ou de subir desmesuradamente na carreira, tem naturalmente melhor qualidade de vida no interior: casas a preços mais baixos, ambiente menos poluído, sossego, entre outros valores. O mesmo vale para quem é tem terrenos rentáveis e goste da agricultura.

No entanto, quem não tem essas benesses, na realidade deve fugir do interior. O emprego é quase inexistente e o que existe é mal pago. As oportunidades de ascenção profissional são inexistentes. Além do mais, para quem não sabe, existe ainda uma certa clausura mental no interior que leva as pessoas a aceitarem passivamente certo tipo de comportamentos como violência familiar, casamentos arranjados, o primeiro(a) namorado(a) ser já uma antecâmara do casamento, entre outros factores. Eu sei que as pessoas do interior não gostam e ouvir isso mas eu, que passei lá algum tempo, pude constatar isso.

Felizmente, a migração de alunos para as universidades e politécnicos do interior que veio colmatar muitas deficiências educativas tem vindo a modificar as coisas mas nada impede que o interior se transforme numa espécie de Coimbra: um sítio onde se passe 5 anos a estudar antes de se relegar para as memórias.

É fácil falar mas difícil implementar.