terça-feira, novembro 30, 2010

Região Centro - Nem as lampreias subirão, nem os barcos descerão

|Humberto Oliveira|
Presidente da Câmara de Penacova

Foi publicado no Diário da República o anúncio que autoriza o “Contrato de implementação e de concessão da exploração de uma mini-hídrica num troço do Rio Mondego pertencente aos Municípios de Penacova e Vila Nova de Poiares” que deverá ficar algures na zona da Foz do Caneiro.

Não podemos deixar de lamentar que os autarcas tenham tido conhecimento deste facto que tem forte impacto na vida das suas populações, através dos jornais. Mas estas são questões formais, a que atribuímos apenas a importância que têm. O que mais nos importa são as questões substanciais.

Há muitos motivos para se gostar de Penacova. Entre eles estão a Lampreia ou as fantásticas descidas do Rio Mondego em caiaque. E todos temos também conhecimento dos impactos que uma barragem tem no ecossistema do rio. Não tivéssemos nós três: desde a gigante Aguieira, à Mini-Hídrica da Mogueira, passando pela intermédia Raiva/Coiço. Será para nós, portanto, fácil imaginar o efeito que uma infra-estrutura destas terá nesses dois produtos turísticos: nem as lampreias subirão, nem os barcos descerão!

Aliás, relativamente à subida da lampreia, não se compreende por que razão o Estado mantém um investimento de cerca de 4 milhões de euros na escada de peixe da Ponte-Açude em Coimbra, para permitir a subida das lampreias e de outras espécies, e agora pensa colocar no mesmo leito mais um obstáculo ao seu ciclo da vida natural.

Não podemos deixar de referir que o biólogo que estudou a escada de peixe da Ponte-Açude, Doutor Pedro Raposo de Almeida, da Univ. de Évora, tem defendido que o investimento da Ponte-Açude só se justifica caso se intervenha em três dos açudes a montante, permitindo a subida que hoje será impossível: Torres do Mondego, Rebordosa e Pista de Pesca de Vila Nova.

Poder-se-á argumentar que no projecto da mini-hídrica ficará contemplada uma escada de peixe. Que ninguém ignore que no Açude da Rebordosa ficou um canal para a subida do peixe e a descida dos caiaques, e verificamos que nem uma nem outra!

Por isso observo com inconformismo que a construção de uma Barragem entre a Rebordosa e o Caneiro poderá ser a morte anunciada de uma actividade que traz a Penacova, cerca de 30.000 pessoas por ano entre Abril e Setembro.

Quando esta actividade começou, em meados da década de 80, pelo pioneiro Dirk Van Vossole, a viagem era efectuada entre o Reconquinho e o Parque da Cidade em Coimbra, onde hoje se localiza o denominado “Parque Verde”. Mas foram-se construindo açudes: Reconquinho, Torres do Mondego e Rebordosa. Com a construção do Reconquinho, deixámos de “dar vida” e cor àquela Praia Fluvial. Na hora da partida dos caiaques, deixámos de dar rentabilidade ao Bar/Restaurante aí instalado, deixámos de dar a conhecer de uma forma mais próxima a Encosta do Sol e o Mirante.

Alguns operadores turísticos do rio passaram a embarcar os seus clientes a jusante destes açudes. E aqueles que o não fizeram ultrapassam este obstáculo com as “canoas à mão”…

Com efeito, se se construir um novo Açude parece-me que o destino do rio e das empresas de animação turística que operam no Rio Mondego, estará traçado… Perderemos porventura economia, visitantes e notoriedade. E por isso, enquanto autarca de Penacova e, estou certo, com todos os penacovenses, não poderei aceitar!

Deixo mais uma reflexão: Por que razão é atribuída uma compensação de 2,5% aos Municípios onde são instalados Parques Eólicos e nada é previsto para as mini-hídricas? Serão porventura os impactos dos Parques Eólicos superiores aos das mini-hídricas? Mesmo para um leigo a resposta é óbvia: com certeza que não…
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