quinta-feira, março 17, 2011

Fantasporto termina com ataques ao centralismo da capital

Terminou a 31ª edição do Fantasporto e o seu director, Mário Dorminsky, criticou o centralismo da capital do país, pois “não prestar atenção à cultura faz jus à lógica centralista deste minúsculo país chamado Lisboa, que vive à custa daquilo que denomina de paisagem.

Aí Lisboa tem razão, temos paisagem, temos património, sabemos receber e criamos uma excelente imagem a quem nos visita. Tudo isto é lógico, está testado, está provado. O país rodeado de paisagem é também o país do desemprego, do dito subsídio-dependente, mas afinal um país que subsidia largamente a macrocefalia lisboeta”.

Insistir em fazer cultura no norte, a região mais pobre da Europa, é para os organizadores do Fantasporto “uma questão de princípio, uma questão cultural, de formação e de educação.É o anti-oportunismo político partidário, é ser totalmente independente, e é também, num país como este, ser quase masoquista”, aproveitando Mário Dorminsky para estabelecer um paralelo entre o Fantasporto, com o pouco reconhecimento que lhe é atribuído, e outros festivais cinematográficos que recebem mais apoios dos órgãos governamentais.

“Há um festival parecido com a nossa lógica, que é no Estoril, organizado pelo Paulo Branco. A assimetria fundamental é que o festival do Estoril recebe 700 mil euros do Turismo de Portugal para a vinda de convidados estrangeiros, enquanto nós recebemos 35 mil. O país está a desaparecer e a ficar concentrado em Lisboa, e isto também se aplica à comunicação social, que desapareceu do país real”, disse Mário Dorminsky.



“Não temos o caquético jet set das revistas cor-de-rosa”

O mentor do Festival Internacional de Cinema do Porto deixou um pedido de desculpa a “alguns” meios de comunicação por não ter havido incêndios no Rivoli, mortos, ambulâncias do INEM, sangue a correr nas ruas do Porto e ninguém conhecido ter andado despido nos corredores dos hotéis, afirmando que, no âmbito do Fantas, deu entrevistas a várias televisões “a olhar para o boneco num cubículo, porque não havia jornalistas desses canais, na cidade do Porto, disponíveis para fazer a entrevista pessoalmente”.

“Não temos aquele caquético ‘jet set’ que aparece invariavelmente nas revistas cor-de-rosa e nas múltiplas páginas que os diários lhes dedicam. Lamentavelmente não houve motivos de notícia, os filmes e os realizadores deste festival só irão ter destaque quando forem ao micro país chamado Lisboa. A comunicação social dá seis páginas de destaque a um cineasta que vai a Lisboa a determinados festivais, quando nós já há 10 anos exibimos os filmes desses cineastas em contínuo. Quem está em Lisboa não faz a mínima ideia do que se faz no resto pais, à excepção de mortos ou quedas das casas”, criticou o organizador.

Recado para a classe política

Mário Dorminsky deixou “outro recado” à classe política: “pensem, discutam, arranjem soluções. Todos nós já damos o que temos e quase o que não temos para que este país se mantenha à tona. Cumpram a vossa parte do acordo celebrado em 1974 e que se chama democracia. Estas assimetrias são o reflexo do que se passa tanto com o poder político como económico, Não há nenhum político do norte que tenha voz nacional.

O Norte tinha as maiores empresas do país e neste momento há apenas uma e, por caso, a equipa dessa empresa trabalha a sul. Ainda a semana passada li, devo ter entendido mal, que se vai criar uma região piloto em Lisboa para testar a regionalização em Portugal. Seria ridículo, era um exemplo claro que vivemos num autêntico jardim infantil, em que se dizem barbaridades que logicamente não se podem por em prática, porque não têm qualquer futuro”.

Voltaremos para o ano

No final do discurso e fazendo o balanço desta 31ª edição do Fantas, Mário Dorminsky, respondeu de forma bem positiva e convicta à pergunta colocada: “Voltaremos para o ano? Tenho confiança que sim, mas temo sempre as palavras crise, centralismo e a total ausência de voz que o norte tem. É corajoso da parte de um núcleo de pessoas, que faz este evento há 31 anos, mantê-lo no Porto e não o transferir para algum lado, mesmo tendo em conta a quase ausência de apoio da Câmara ao evento e o não aproveitamento quer do Estado quer da autarquia da imagem mediática deste evento a nível internacional. Apesar dos constrangimentos, este Fantasporto foi o maior até hoje realizado, em número filmes, de convidados e de imprensa presente”

|Jornal Norte/Lusa|
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3 Opiniões

At quinta mar 17, 03:35:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

A mim parece-me que a cidade do Porto, e a sua área metropolitana, e os seus habitantes em especial deviam olhar mais para os seus próprios problemas estruturais...como por exemplo os baixos salários que aí se praticam, escassas condições de trabalho e não estarem-se sempre a desculpar com o "centralismo" de Lisboa.
É giro, porque não vejo a elite do Porto preocupado com o resto do norte (Minho, Trás Montes) ou com o resto do país...porque para voçês o resto do país resume-se ao Porto, e vá lá, a Gaia.
Convençam-se de uma coisa, não é a regionalização que vai salvar o "norte" (expressão que os portuenses gostam de usar)...porque para voçês a regionalização serve para enterrar dinheiro em certas coisas, tipo o Futebol...sim, porque o local de treinos do FCP foi feito com dinehiros públicos (da CMGAIA)...isto sem falar dos problemas que houve com o estádio)...
por isso meus caros compatriotas da invicta, olhem mais para os vossos problemas, mudem as mentalidades e não culpem "Lisboa por tudo...

Ass: Pedro

 
At sexta mar 18, 01:41:00 da manhã, Blogger DORMINSKY said...

Caro Pedro cresça e apareça. quando nao tiver nada de sensato para dizer cale-se...e bem melhor do que demonstrar precisamente a sua total ignorancia e..efro nao tecer mais comentarios

 
At sexta mar 18, 04:11:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Senhor Dorminsky, não sou propriamente fã do estilo de cinema exibido no Festival "Fantasporto", por si organizado", mas reconheço que se trata de uma iniciativa cultural de louvar e que, segundo sei, tem, inclusivé, reconhecimento internacional junto da crítica especializada, pelo que admiro o seu trabalho.
Inclusivamente, segundo sei, é um grande benfiquista, o que também é igualmente de saudar.
Posto isto, gostaria de salientar que apenas emiti a minha simples opinião, e penso que a mesma, pese embora vá contra a opinião deste BLOGUE, não contém teor ofensivo.
Apenas acho que certa elite do Porto, culpa o governo central de tudo de mal o que acontece...e que, tal como em todos os locais, há muitos problemas estruturais que são culpa das próprias pessoas que aí habitam.
Não lhe nego Senhor Dorminsky, sou 200% contra a regionalização, mas de facto há questões bem + prementes para resolver em Portugal..mas fico com pena quando vejo certos argumentos usados pelos apoiantes (presumo que o Senhor também o seja, pelo que referiu no artigo publicado) da regionalização acabem por acontecer aí com certas instituições que são escandalosamente beneficiadas pelas autoridades locais (nem vale a pena citar nomes porque creio que a mesma é por demais clara).

Com os meus melhores cumprimentos

 

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