segunda-feira, agosto 15, 2011

A Auto-estrada Transmontana ainda não passa de uma dor de cabeça de 130 quilómetros

Podia ser uma via dolorosa, até porque também há uma Jerusalém nesta história. E o Cristo, expressão mui portuguesa para a pessoa que carrega o seu fardo sem lamúrias, é o condutor que, por falta de alternativa, ou simplesmente distraído, se apanha a tentar fazer o IP4, principalmente na extensão a leste do Marão.

Diz-se que aí mandam os que lá estão, mas, por estes tempos, o ritmo dos dias é ditado pelas obras de construção da auto-estrada transmontana e de reaqualificação do próprio IP4, que obrigam a vários desvios para a lentidão das vias secundárias.

A abertura de alguns troços aliviou o peso desta cruz, mas os transmontanos, e quem os visita, têm pela frente mais um ano de sacríficios.

Quem por estes dias entre na A4 em Valongo em direcção a Bragança, em cujo castelo se recua hoje aos tempos medievais, na Festa da História, não imagina que viajará também, neste caso, aos tempos em que, não existindo sequer o itinerário que agora está a ser intervencionado, se demorava quase meia dúzia de horas a fazer o percurso. E basta o azar - razoavelmente frequente - de apanhar um fila por causa de um acidente, para tornar realidade um pesadelo que os transmontanos, principalmente, julgavam enterrado no fundo da memória.

A história reaparece envolta em poeira - quilómetros e quilómetros a apanhar com ela - e polémica quanto baste. A obra não é fácil, tem tido vicissitudes, e nem a abertura de alguns troços, como os sete quilómetros entre Lamares e Justes, ou da variante sul a Bragança, anunciada para a penúltima semana de Agosto, apaga o desconforto da viagem. Que, por estes dias, só fará quem seja mesmo obrigado. Porque, de repente, até os quilómetros a mais de um desvio pela A7, A24 e pela galega Auto-estrada das Rias Baixas, a norte, ou pela A25 e pelo IP2, a sul, se tornam pertinentes quando, à contabilidade dos custos, se tem que somar o desgaste de tal percurso pelo que resta do IP4.

Saído do Porto pelas 9h15, na quarta-feira passada, nada deixa antever o que teremos pela frente. O que assusta é mesmo a promessa de temperaturas acima dos 30º. Ah, e a voz da "astróloga" de serviço na TSF, a animadora Ana Bravo, a dizer-nos que, em breve, apanharemos fila por causa de um acidente na saída de Parada de Cunhos, antes de Vila Real. Passadas as portagens de saída da A4 e vários quilómetros com trabalhos em curso a estreitar ainda as vias - mas que não nos impedem de circular a 70-90 km/h, consoante tenhamos ou não um pesado à frente -, só pelas 10h20 somos travados pelo tal acidente.

É uma situação típica do IP4, com efeitos no tráfego ampliados pelas obras. Na descida, um camião sem travões abalroou um carro que, em carambola, bateu num outro. Resultado: apenas um ferido ligeiro, felizmente. Mas, para Domingos Santos, que ontem tinha de regressar para a Suíça, onde vive e trabalha, a ida gorada ao dentista transformou-se numa enorme dor de cabeça, já que a traseira desfeita da sua carrinha lhe ameaçava os planos e até o emprego, temia. "Estas obras fazem muita confusão às pessoas, principalmente às que não estão habituadas", queixou-se.

Percebemos mais à frente o que quer dizer o emigrante quando falou em confusão. O IP4 está cortado neste nó. Por sorte, a esta hora, cinco minutos dentro da cidade chegam para se alcançar de novo o itinerário, condicionado, com muita gente a trabalhar nas bermas. Já são 10h55 - parámos vários minutos, por duas vezes, para fotografar - quando somos desviados de novo em Lamares, desta vez para um incursão na EN 15, até Justes. Limitado a uma faixa de rodagem para cada sentido, até Setembro, o troço Lamares-Justes da nova auto-estrada reabriu sexta-feira. Azar o do imigrante francês que segue num Mercedes velhinho, à nossa frente, circulando aos mesmos 50 km/h que nós e todos os outros, até ao Alto do Pópulo.


O calvário de Jerusalém

Será assim até Bragança. Quilómetros a recuperar a memória de velhas estradas nacionais, com camiões a tornar mais lenta a viagem, alternam com uns quilómetros no IP4. Este com obras ora à esquerda, ora à direita, estreitando a faixa de rodagem e acrescentando à temperatura em crescendo nuvens de poeira a pedir ainda mais cuidado na circulação. Não espanta por­ isso ouvir o empresário João Campos - que encontraremos mais à frente, em Bragança - afirmar que sempre que tem de ir a Viana, onde tem família, se atira Montesinho acima até Espanha, onde apanha a auto-estrada A52, até ao litoral galego.

Mas há quem não possa fugir. Numa ligação entre Vila Real e qualquer dos concelhos do Sul do distrito de Bragança, como Alfândega ou Mogadouro, fugir por Espanha ou descer à A25 é sempre demasiado longe, pelo que não resta às pessoas senão seguir as placas e as linhas amarelas nesse calvário do IP4 que há-de ser, lá para Setembro de 2012, uma auto-estrada. São 12h25, falta-nos 45 minutos de caminho. Mas, depois de passado o rio Tua, novo desvio atira-nos para a EN15, onde seguimos a ritmo de caracol até uma Jerusalém onde, como na bíblica cidade, não faltam oliveiras. Jerusalém do Romeu já lá estava antes deste percurso assumir foros de via dolososa, e é conhecida de muitos romeiros da boa comida, que fazem quilómetros para se sentarem à mesa do Maria Rita. Um restaurante onde são menos, dizem-nos, os clientes de fim-de-semana, mas onde, graças ao desvio que nos atira para aqui, chegam novos comensais nos dias úteis.

É o caso de um casal de italianos, a caminho da Festa da História de Bragança, para vender máscaras venezianas. Espantados com a beleza do lugar para onde foram "empurrados", desabafam, aos primeiros segundos de conversa, num espanhol limpinho. "Isto es muy bonito. Pero la carretera es muy mala, eh!" Concordamos. Até porque parte dela ainda está à nossa frente.

|Publico|
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